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    Enólogos da Viña Ventisquero

    Os vinhos de dois mundos

    John Duval, para quem não conhece, é o grande enólogo australiano que durante 29 anos elaborou aquele que é o indiscutível ícone da terra dos cangurus: o Penfolds Grange, um Shiraz com toda a potência, concentração e fruta que a Austrália nos oferece e que atinge cifras estratosféricas em suas safras mais antigas.

    Portanto, o coração chegou a bater mais forte pelo privilégio de sentar-me à mesa com esse enólogo lendário. A oportunidade foi um convite da gigante chilena Viña Ventisquero para uma degustação e almoço no Fasano al Mare da praia de Ipanema. John foi contratado pela Ventisquero para colaborar com Felipe Tosso, o enólogo residente, na produção de seus dois maiores rótulos: o Pangea e o Vertice.

    EnoEventos também é cultura e conta que o nome Pangea refere-se ao grande e único continente que existia na Terra, há 200 milhões de anos, e que portanto reunia em uma única extensão de terra, junto com os demais continentes, a América e a Oceania. É um nome fortíssimo como o próprio vinho, representando a união dos conhecimentos enológicos chilenos e australianos.

    Mas a degustação se iniciou com o Queulat Sauvignon Blanc 2008, um vinho com aromas cítricos, herbáceos e minerais, no qual o enólogo buscou concentração, intensidade e aromas pungentes e para tanto lançou mão de um corte de três clones da casta: um mais aromático, outro com mais estrutura e o terceiro com marcante mineralidade. Essa mistureba toda resultou em um delicioso vinho refrescante e cheio de estilo.

    Em seguida, fomos servidos do Queulat Pinot Noir 2007, um vinho delicado, macio e equilibrado, com aromas terrosos, de tostados e cerejas frescas, que no almoço seria confrontado com o novo Pinot Noir da Ventisquero: o Herú 2007. Felipe Tosso nos contou que na Ventisquero, os Pinot Noir são elaborados pelo enólogo dos vinhos brancos, Alejandro Galaz. - "Se fosse eu a cuidar dos Pinots, sairia um vinho escuro, pesado!", explicou Felipe.
    "Dentre os dois Pinot Noir, eu fico com os aromas do Queulat e com a boca do Herú."

    Dionisio Chaves
    Sommelier, Fasano


    Continuamos com dois rótulos da linha Grey: o Grey Merlot 2006 e o Grey Syrah 2006, ambos impressionantes, tendo o Merlot apelado mais ao meu gosto, com aromas de ameixas pretas, canela e chocolate e com muita maciez, frescor e uma plástica invejável!

    A degustação atingiu seu clímax com a chegada dos vinhos elaborados por John Duval: o Vertice 2006 e o Pangea 2006, que devem ter sido fermentados com um koala na barrica, tamanha a força do carimbo australiano. O primeiro é um corte de 51% Carmenère e 49% Syrah (por que não é 50-50, não sei...). Um vinho recendendo a goiabas, café e mentol, com uma boca aveludada, suntuosa, longa e extravagante, com muitas especiarias e taninos prá lá de elegantes! O segundo, 100% Syrah (ou, mais apropriadamente, Shiraz...), passa 20 meses em barricas francesas e mais 12 em garrafas, antes de vir deliciar nossas papilas. Com toques de ameixa, flores e manteiga, é um vinho muito tudo: macio, suculento, fresco, potente e persistente. Espetacular!

    Mas o mais interessante do evento foi uma degustação de 3 amostras ainda não engarrafadas. Eram 3 Syrah, elaborados da exata mesma maneira, com mesmo tempo de fermentação e guarda. Era tudo igual, todos de Apalta, tendo como única diferença a parcela do vinhedo e sua altitude. Apesar de todas as semelhanças na produção, eram vinhos marcadamente diferentes: o primeiro era frutado e com bela acidez; o segundo apresentava toques minerais e amanteigados e o terceiro era muito macio e concentrado. E é dessas amostras que John Duval e Felipe Tosso vão escolher quais delas, em quais proporções, irão constituir o corte do próximo Pangea. Foi quase como um making of do vinho! Muito legal!

    Oscar Daudt
    Os vinhos
    Ventisquero Queulat Sauvignon Blanc 2008
    Região: Valle de Casablanca
    Castas: 100% Sauvignon Blanc
    Álcool: 13,5%
    Açucar residual: 2,15g/l
    Ventisquero Queulat Pinot Noir 2007
    Região: Valle de Casablanca
    Castas: 100% Pinot Noir
    Álcool: 14%
    Envelhecimento: 12 meses em carvalho francês
    Ventisquero Grey Syrah 2006
    Região: Valle de Colchagua
    Castas: 100% Syrah
    Álcool: 14,9%
    Envelhecimento: 16 meses em carvalho francês e 12 meses em garrafa
    Ventisquero Grey Merlot 2006
    Região: Valle de Colchagua
    Castas: 85% Merlot, 10% Syrah, 5% Carmenère
    Álcool: 14,6%
    Envelhecimento: 16 meses em carvalho francês e 12 meses em garrafa
    Vertice 2006
    Região: Valle de Colchagua
    Castas: 51% Carmenère, 49% Syrah
    Álcool: 14,5%
    Envelhecimento: 20 meses em carvalho francês de grão fino e 10 (por enquanto...) meses em garrafa
    Pangea 2006
    Região: Valle de Colchagua
    Castas: 100% Syrah
    Álcool: 14,5%
    Envelhecimento: 20 meses em carvalho francês e 12 meses em garrafa
    A curiosa degustação horizontal de terroirs Herú 2007
    Região: Valle de Casablanca
    Castas: 100% Pinot Noir
    Álcool: 14%
    Envelhecimento: 14 meses em carvalho francês (35% novos)
    Os vinhedos da Ventisquero
    (material de divulgação)
    Apalta Casablanca Patacón/Lolol Trinidad
    Os participantes
    O enólogo John Duval O enólogo Felipe Tosso Chef Danio Braga, presidente da ABS-Brasil Ricardo Farias, ex-presidente da ABS-Rio
    Juan Ignacio Zúñiga, da Ventisquero, recebeu um livro autografado de Marcelo Copello José Paulo Schiffini estava com a corda toda... A jornalista Danusia Barbara Alessandra Casolato, da CH2A, e o consultor Paulo Nicolay
    Os "australianos": Alexandre Lalas, Luciana Plaas e John Duval Tiago dal Pizzol, da Importadora Cantu Jaqueline Barroso, representante da Cantu no Rio de Janeiro Luciana Plaas e Reinaldo Paes Barreto, diretor do Jornal do Brasil
    Gabriella Freitas e Anselmo Carneiro, da Cantu O serviço foi conduzido pelo sommelier Dionisio Chaves A mesa de degustação Eu e John Duval
    Confraternizações
    Na poltrona "La Mamma" de Philippe Starck
    Felipe Alessandra, Juan Ignácio e John Juan Ignácio
    A bela vista do terraço do Hotel Fasano
    Comentários
    Jack Barroso
    Representante comercial
    Rio de Janeiro
    RJ
    01/05/2009 Oi Daudt,

    Em nome da Cantu Importadora agradeço a presença e essa linda matéria. Adorei!!! Até fiquei bonitinha nas fotos!!

    Bjs.
    Jack Barroso
    José Paulo Schiffini
    Enófilo da velha guarda
    Rio de Janeiro
    RJ
    02/05/2009 Estava sim com a corda toda, pois não é sempre que posso questionar dois enólogos do porte de Felipe Toso e John Duval.

    Este mundo do vinho é engraçado: os franceses inventaram a palavra Terroir, que não tem tradução em nenhuma outra língua com a abrangência de significado que eles emprestam a ela, algo como: "c'est l'ensemble des elements naturels qui caractérisent un vignoble: nature du sol, exposition, le micro-climat, la nature de sous-sol, etc."

    Este conceito foi aproveitado pelas cabeças pensantes do marketing dos países europeus como a bandeira principal de seus vinhos. "C'est un vin du Terroir", como se tudo resto fosse um vinho tecnológico, maquiado no laboratório... E usam como exemplo mais significativo da importância do conceito de Terroir o Pinot Noir da Borgonha: pois a poucos metros de distancia lá você encontra um Pinot Noir apenas ordinário e outro espetacularmente sublime...

    Atenção: Vinho de terroir não é necessariamente de qualidade.

    Lá pelos anos 1950 a viticultura do Novo Mundo privilegiou a casta e a tecnologia, ao invés do Terroir e foi a Austrália, que não possui casta nativa em seu território, a primeira a desafiar os conceitos do Terroir do velho mundo.

    Todos concordam que para fazer um vinho de qualidade o que interessa é obter uvas maduras, em excelente estado de sanidade e com acidez suficiente para acompanhar a comida e bem doces.

    A Austrália utilizou os conceitos de irrigação individual ou artificial de cada videira para que ela não entrasse em stress térmico, visto que a chave do "papo" acima de Terroir é o balanço hídrico do solo, que deve ser deficitário ou levemente positivo, não importando muito a composição do mesmo solo... Outro conceito inovador da Austrália foi utilizar a refrigeração para evitar que a fermentação se inicie antecipadamente ainda no vinhedo..

    No mundo dos vinhos finos de qualidade não é aceita qualquer interferência química na elaboração do mesmo! Porém interferência física qualquer que ela seja, ela é aceita, desde preparar o solo até, colocar raspas de carvalho para aromatizar os vinhos, vale!

    Foi Max Schubert, que estava em Bordeaux, durante a canícula da colheita da safra de 1949, quem começou a imaginar e sonhar com um vinho que viria a ser o Grange Hermitage da Penfolds, empresa onde o John Duval trabalhou por 30 anos. Claro que eu tinha que questioná-lo sobre o papel, para mim secundário do solo, nesta evolução; pois conhecia um pouco da história de Max Schubert resumida para quem se interessar no livro “New Classic Wine” de Oz Clark, publicado pela Beazley & Webster.

    Fui quase agredido. Todos os enólogos defenderam o Terroir, apesar de eu me referir ao papel secundário do solo face ao papel preponderante do clima nos países produtores de vinho do Novo Mundo...

    Mas entendi tudo e fiquei calado; porque correlacionei os fatos.

    A “tchurma” do Velho Mundo começa a romper os grilhões do sistema de Appelation Controlè...e a “tchurma” de vinhos do Novo Mundo estão agora chegando mais para perto do conceito de Terroir..., até análise de condutividade elétrica dos solos a Ventisquero faz, para escolher qual parcela do solo deve receber qual variedade de uva, e obviamente as melhores parcelas do solo são reservadas para as melhores uvas de uma dada casta, aquela que melhor se adapta àquele solo, um certo tipo de agricultura de precisão pois houve uma adaptação perfeita Casta com o Terroir daquela parcela, coisa que no Velho Mundo acho que apenas o Ângelo Gaja utilizou para localizar uma boa parcela de solo na propriedade da Toscana...

    Melhor que isto é o uso do conceito bem francês de Terroir Management, que permite escolher qual assemblage realizar entre vinhos produzidos pelo mesmo enólogo, de castas idênticas oriundas do mesmo clone, porém plantadas em locais diferentes.... Todos capitais franceses investidos em vinícolas no Novo Mundo se utilizam desta técnica, a primeira vez que fui apresentado a ela foi pelo Benoit da Alta Vista e recentemente na Ruca Malen.

    Aí para mim ficou mais claro ainda que a busca por lugares mais frescos (por exemplo: mais altos, conceito que o Mario Geisse se utiliza) onde as uvas amadurecem mais devagar e conseqüentemente desenvolverão aromas mais intensos é mais importante hoje em dia, que buscar condutividade elétrica do solo, ou buscar solos siliciosos que favorecem a finesse, e as notas sutis e florais, ou buscar solos argilosos que darão vinhos mais duros, fechados, possantes e alcoólicos, com polifenóis aromáticos ou mesmo buscar solos calcários que induzem ao vinho mais maciez, de notas minerais, frutadas e florais.....

    E como Terroir é um conceito conhecido pelo grande Marketing, pois apesar de poucas pessoas entenderem, é um conceito que vende! Ninguém quer abandonar o marketing pelo Terroir....

    Neste instante recebo e-mail de Jorge Barbosa que está no Chile e nos conta que o Clos Apalta dobrou de preço por lá na origem, pois Apalta é um vale muito especial, etc... Eu acho que o Terroir de Apalta, com toda sua mítica, vende, mas devagar, existe vida vínica fora de Apalta também...

    Nessa onda o Pangea vinho top da vinícola (assemblagem com uvas plantadas no block 15 de apenas 250 metros de altitude) é mais “flavourous” ou saboroso que o Vértice ( assemblagem com uvas plantadas no block 25 de 470 metros de altitude).

    Para mim a altitude e a drenagem do solo foram mais importantes que a composição do solo.

    E deixei para o final a prova destrutiva da eficácia do marketing por terroir: o marketing das champagnes e dos vinhos do Porto, regiões geográficas determinadas, com várias castas plantadas à “Bangu”, em alguns vinhedos centenários...

    A vinícola Ventisquero em apenas dez anos é a terceira mais importante do Chile empresta do marketing de Terroir tão comum no Velho Mundo mais um argumento de venda, além do desgastado Ultra Premium, utilizado por quase todos os vinhos das melhores vinícolas do Chile. Temos agora o terroir do Pangea... Claro quer esta é uma critica minha ao tratamento que o grande Marketing se utiliza para puxar o preço dos vinhos para cima.

    Para você, que conhece vinho, saiba extrair o marketing que puxa os preços para cima. Se um vinho é bom procure sempre as versões do mesmo mais despojado do alto custo de marketing....

    Para você os melhores Best buy da Ventisquero são

  • o Pinot Noir Queulat
  • o Cabernet Sauvignon Queulat
  • o Grey Syrah
  • o Grey Carmenère
  • o Sauvignon Blanc Queulat
  • e o grande lançamento: o Pinot Noir Heru, o melhor Pinot Noir do Chile para mim...

    Parabéns ao pessoal da Cantu que com poucas vinícolas sendo representadas, nos traz o melhor da Argentina com a Suzana Balbo, o melhor do Tannat uruguaio com a Família Stagnari, sem dúvida o melhor deste garoto fantástico Felipe Toso, o melhor syrah da Itália PerBruno, o melhor rose francês: Chateau de Pourcieux e grandes azeites de oliva espanhóis, todos para você na Expovinis.

    Como sempre digo: Olho vivo, Nariz atento e Paladar afiado.

    Schiffini
  • Oscar Daudt
    EnoEventos
    Rio de Janeiro
    RJ
    02/05/2009 Schiffini,

    Não é a toa que eu lhe chamo de Mestre. Que aula!!!!

    Abraços,
    Oscar
    Eder Heck
    Sommelier, Mr. Lam
    Rio de Janeiro
    RJ
    02/05/2009 Amigos,

    Quem sabe um dia ainda terei a Honra de ser convidado para uma degustação deste calibre e com estas personalidades rsrsrsrsr...

    abs

    Ps: mas provei todos os vinhos antes de vcs..
    Eduardo Silva
    Enófilo
    Maringá
    PR
    03/05/2009 Parabéns ao Tiago dal Pizzol, que não mede esforços ao levar o nome Ventisquero (e Cantú) por todos os rincões deste País.

    Eduardo
    World Importados
    Maringá
    Jose Villar
    Médico
    Rio de Janeiro
    RJ
    04/05/2009 Já havia tomado todos os tintos da vinícola no Chile em visita, execelentes vinhos.

    Quanto aos pinot noir parece que o Chile tem feito vinhos muito parecidos (Anakena, Amayna, Ventisqueiro, Morande, entre outros). Vale a pena pesquizar a relação custo/benefício.

    Em tempo: na Cadeg em São Cristovão (RJ) já tem todos, com preços melhores que na importadora, pode ser o efeito dolar e no sabado ainda come um senhor bacalhau com festa portuguesa.
    Juan Ignácio Zuñiga
    Viña Ventisquero
    Chile
    11/05/209 Estimados Amigos,

    Para mí lo más importante es que el grupo de personas que estuvimos junto a John y Felipe pasamos un increible momento, degustamos grandes vinos y un excelente almuerzo!

    Un abrazo a todos!
    Juan Ignacio
    EnoEventos - Oscar Daudt - (21)9636-8643 - odaudt@enoeventos.com.br