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Viagem fantástica
Em 2010, participei de uma viagem organizada por José Grimberg, da Bergut, para Bordeaux e foi maravilhosa em todos os sentidos. Claro que, quando Grimberg anunciou a edição deste ano, para o norte da Itália, não pensei duas vezes e entrei novamente no grupo. E mais uma vez foi excepcional, com hotéis de primeira, restaurantes estrelados e visitas mais do que exclusivas a diversas vinícolas.

Grimberg exibiu todo o seu prestígio na região, recebendo tratamento vip - e, como consequência, nós também - até mesmo de vinícolas que não costumam abrir suas adegas para grupos de visitantes. Foi um show!

Estivemos 3 dias no Veneto, 1 em Franciacorta e finalizamos com 3 dias no Piemonte. Como há muito para contar - e mostrar - dividi a reportagem em 3 partes, uma para cada região, e apresento nesta primeira nossas aventuras pela Terra dos Amarones.

Os melhores restaurantes
Para não apresentar apenas minha opinião sobre os restaurantes visitados, mais uma vez fiz uma pesquisa entre os participantes da excursão em que cada um deu uma nota de 0 a 10 a cada restaurante. Alguns enófilos mais entusiasmados chegaram a premiar com a nota 11 o melhor restaurante, mas essas notas foram consideradas como 10. Em geral, na opinião do grupo, os restaurantes foram bem avaliados, à exceção do sofrível último lugar.

Note-se que este levantamento refere-se a todos os restaurantes da viagem, e não apenas aos restaurantes do Veneto. Confiram a classificação final e anotem na agenda, para na próxima viagem à Itália, dar uma conferida, pelo menos, nos 5 primeiros colocados, pois são imperdíveis:



Entreouvido por lá
(com licença da Revista O Globo)

"As garrafas ficam penduradas pelo gargalho." - Enófila comentando sobre um rack de vinhos no restaurante Tancredi

"Compostura!" - Enófilo escandalizado quando perguntado se faltava alguma coisa na mesa do restaurante

"Ono per mi." - Enófila poliglota ensaiando um italiano com o garçom

"Na boca!" - Enófilo engraçadinho quando perguntado sobre onde iriam fumar um charuto

"Não, estou estufado!" - Enófilo glutão respondendo ao garçom em um finíssimo restaurante

"Isso é uma grappa?" - Enófilo desorientado ao ver uma lâmpada modernosa na Bellavista

Oscar Daudt
Os participantes
Ana Maria Antonio e Janaína Eduardo e Juliana
Glauco e Gláucia Grimberg e Ester Homero e Jô
Hugo Ilda Justi e Valéria
Márcio Marcos e Tereza Mário e Lou
Oscar Sérgio e Sílvia Zizi
Nosso guia Carlos
A bela Verona
Verona é linda! Uma cidade com cerca de 250 mil habitantes e mais de 2.000 anos de história, é repleta de prédios antigos que representam as mais diversas fases de sua vida de poder e arte. Declarada como Patrimônio Histórico pela UNESCO, a cidade ainda oferece aos amantes do vinho uma das glórias da vinicultura italiana: o meu preferido Amarone della Valpolicella.

Apesar de tudo isso, a grande maioria dos turistas que para lá são atraídos só querem saber de uma coisa: visitar a Casa de Julieta, a trágica namorada de Romeu. Sim, existe essa casa, apesar de Julieta ser apenas uma personagem de ficção. E mais, existe até o túmulo de Julieta, mas como não fomos visitar essa "atração", não faço idéia de o que está enterrado por lá.

Algumas visitantes, tendo assistido ao filme Cartas para Julieta, chegam por lá dispostas a colocar suas cartinhas de amor nos buracos das paredes e não escondem sua decepção ao saber que isso não passa de invenção de Hollywood. Então, para compensar, entram na fila - quase de INSS - para passar a mão no seio da estátua da heroína, o que, segundo a tradição, é condição indispensável para um dia retornar à cidade.
Panorâmica do rio Adige
Castel San Pietro O rio Adige corta a cidade Loggia del Consiglio
Muitas estátuas pela cidade
Palazzo della Ragione O leão marcando território para a República de Veneza A Arena de Verona é sede de espetáculos operísticos
A Casa de Julieta Para voltar a Verona, deve-se colocar a mão no seio de Julieta Nessa romântica cidade, os namorados trancam os cadeados na ponte e jogam a chave no rio
Se este sistema fosse adotado no Brasil, a boca deveria ser bem maior... Ímãs de geladeira Nosso grupo deslumbrado com a arquitetura da cidade
Jantar no Il Desco
Il Desco, do chef Elia Rizzo, é considerado o melhor restaurante da cidade e ostenta duas merecidas estrelas do Guia Michelin. Foi nessa casa que tivemos o nosso jantar de boas-vindas.

Comemos um menu-degustação de incontáveis etapas, previamente combinado. Após bebermos um Champagne e um vinho branco, pedimos um Amarone della Valpolicella, que todos ansiavam para degustar em seu próprio território. No entanto, o menu não permitia, nem a fórceps, a harmonização com esse poderoso tinto. Com isso, ainda tivemos de pedir outros 3 brancos enquanto o Amarone respirava. Foi uma certa decepção - apesar de os brancos serem de tirar o chapéu - e apenas no último prato pudemos, finalmente, devorar o Tenuta Sant'Antonio Campo dei Gigli 2005, um verdadeiro espetáculo de força e poder.
Creme de batata com gamberi Cappesante brasate con lenticchie, crema di zucca e pancetta crocante Zupetta di astice
Risotto de ervilhas Filetto di turbot con porcini e tartufo nero Brasato di manzo com purê de batatas e foie gras
Pré-sobremesas Sobremesa Chef Elia Rizzo
Champagne Pannier Sélecion Brut Vigneto du Lot Soave Classico 2008 Veneca Jesera Collio Pinot Grigio
Vie de Romans Chardonnay 2008 Jermann W... Dreams ... ... ... 2006 Tenuta Sant'Antonio Campo dei Gigli Amarone della Valpolicella 2005
Almoço na Trattoria Tre Marchetti
Colada na Arena de Verona, a Trattoria Tre Marchetti, com uma decoração de filme ítalo-americano, mais parecia uma armadilha para turistas e eu lá entrei sem grandes esperanças. No entanto, a cozinha se revelou muito positiva, com pratos burocráticos mas frescos, coloridos e com ingredientes de qualidade. Em especial, a Salada de lagostas com camarões era um primor! E o atum, com um excepcional aceto balsamico de 40 anos, estava de lamber os beiços...

No entanto, mais uma vez, o cardápio pré-definido nos impediu de pedir Amarones e tivemos de nos contentar com brancos. Foi como ir a Roma e não beber o papa!
O restaurante fica ao lado da Arena de Verona
Salada de lagosta com camarões Talharim com lulas Atum com aceto extra-velho e lagostim com trufas negras
O excelente Aceto Acetaia Dodi Riserva di Famiglia com 40 anos Seleção de patisserie A mesa do almoço
Livio Felluga Sauvignon Colli Orientali del Friuli 2009 Antinori Cervaro della Sala 2000 Anselmi San Vicenzo 2009
Jantar na Osteria Verona Antica
Esse foi um triste momento da viagem e é tarde demais para esquecer. Não sei se a Osteria Verona Antica é sempre assim, mas nossa experiência foi desastrosa e o grupo não perdoou e a lançou para o último lugar da tabela, com uma vergonhosa nota de 4,5. A entrada era um dispensável prato de fiambres, elaborados com puro colesterol. Seguimos com um gigantesco prato de Risotto de Amarone (vide foto para acreditar no tamanho), que mais tarde aprendi que é o truque italiano para encher a barriga dos comensais sem gastar muito: além desse, tivemos também um Risotto de Barolo, no Piemonte. A gaiatice carioca não perdeu tempo e o apelidou de Risotto de Arroz! Sem foto, continuamos com uma pasta indefinível, que também mereceu um apelido: Macarrão Ripasso, visto ser elaborado com um molho que parecia igual ao do Risotto. E encerramos com um prato de friturebas, incomível!

Nessa noite, os vinhos foram oferecidos pela Santa Sofia, uma das três maiores vinícolas de Valpolicella e a única a permanecer familiar. É claro que a cavalo dado, não se olha os dentes, mas não dá para segurar e criticar as escolhas. Essa noite foi o meu batismo de fogo com o vinho Lugana DOC, que se repetiria várias vezes ao longo do Veneto. Elaborado com a casta Trebbiano di Lugana, uma uva de baixa acidez, é claro que oferece vinhos chatos, que cansam já no primeiro gole. O Ripasso, que veio a seguir, era da linha mais básica da vinícola, a Antichello, e eu não sei por que não merecemos o Santa Sofia Ripasso, muito elogiado pelo Gambero Rosso. Continuamos com um corte com predominância de Cabernet Sauvignon, o Predaia 2003, muito parecido com seus pares sul-americanos. Para salvar a pátria, o Santa Sofia Amarone della Valpolicella 2006 foi um belo exemplar de meu vinho preferido.

Grimberg foi presenteado, na chegada à Itália, com uma caixa do exclusivo Champagne Taittinger Les Folies de la Marquetterie e resolveu serví-los nessa noite. Não adiantaram meus apelos para que o elegante vinho fosse servido no início: o teimoso do Grimberg insistiu em serví-los ao final. Depois de tanto teor alcoólico durante o jantar, não sei se àquela altura alguém ainda conseguia diferenciar um bom Champagne de um Espumas de Prata. Eu, para evitar o desperdício, nem provei o vinho...
Fiambres Risotto di Amarone Vitello con capponata
Santa Sofia Lugana 2010 Antichello Valpolicella Ripasso 2007 Santa Sofia Predaia Cabernet Sauvignon 2003
Santa Sofia Amarone della Valpolicella 2006 Champagne Taittinger Les Folies de la Marquetterie Grimberg ofereceu uma placa comemorativa a Luciano Begnoni, proprietário da Santa Sofia
Degustação na Azienda Agricola Zenato
Quem ficou decepcionado com o jantar da noite anterior, foi recompensado com uma excepcional recepção oferecida pela Azienda Agricola Zenato, vinícola familiar sediada em Lugana, mas com extensos vinhedos no coração de Valpolicella. Com grande deferência, a vinícola preparou uma caprichada degustação em meio às barricas, com deliciosos exemplares tintos da linha da empresa, incluindo o top dos tops, o Amarone della Valpolicella Riserva Sergio Zenato 2005, que fez todos correrem à cantina da empresa para levar seu exemplar, vendido a preço que me abstenho de revelar, para não causar crises de choro nos leitores.

Mas, afora a excelência dos vinhos, chamou a atenção de todos a descontração da comandante da degustação, a impagável Rosária que após 30 anos de serviços na vinícola se apresenta como parte dos móveis e utensílios. E ela, realmente, mereceria ser declarada patrimônio da casa, pois seu estilo meio romântico, meio fantástico, a fazia levitar a cada gole e tornava os vinhos ainda melhores do que já eram.
Vinhedos da Zenato
Zenato Valpolicella Superiore 2008 Zenato Cormí Corvina Merlot 2007 Zenato Ripassa Valpolicella Superiore 2007
Zenato Cresasso 2005 Zenato Amarone della Valpolicella 2006 Amarone della Valpolicella Riserva Sergio Zenato 2005
A impagável Rosária, com a discreta Chiara, fez a diferença na degustação A degustação dos Amarones foi acompanhada de queijo Grana Padano Segundo a anfitriã, a Zenato não usa nenhum tipo de defensivos químicos
Almoço no restaurante Tancredi
À beira do lago de Garda, o restaurante Tancredi tem uma arquitetura arrojada, toda branca, que faz excelente uso de sua privilegiada localização, com janelões descortinando a bela vista do local. Nos jardins, conjuntos de sofás - brancos, é claro! - ficam à disposição de quem quer relaxar e deixar o tempo passar.

Mas não são apenas as instalações que chamam a atenção, e o grupo o presenteou com o 3º lugar na classificação dos restaurantes, com nota média de 8,6. O menu foi desenvolvido apenas com frutos do mar - e do lago, também. Os vinhos para a harmonização foram oferecidos pela Zenato e, como não poderia deixar de ser, todos eles brancos. O problema é que os 3 rótulos servidos eram elaborados com ela, novamente, a Trebbiano de Lugana, a tal que não oferece acidez. O terceiro vinho foi o branco mais importante da vinícola, o Lugana DOC Reserva Sergio Zenato 2007, um vinho fermentado em barricas e afinado por 10 meses em tonéis novos de carvalho, sendo guardado ainda 12 meses em garrafa. Um nariz maravilhoso, muito corpo, cremoso, que de imediato me impressionou. O problema foi que a partir do 3º gole, eu já havia cansado pela falta de acidez. Realmente, a Trebbiano local não é a minha praia...
Logo no colorido Tartare de 4 peixes, minha câmera deu xabu e bateu em branco e preto Zupetta di fagiole con gambero e Crema di patate con tartufo Vieiras
Branzino in crosta di sale Sobremesa Zenato Lugana Brut Classico
Zenato Lugana Vigneto San Benedetto 2010 Lugana Riserva Sergio Zenato 2007 Grimberg e Nadia Zenato, herdeira da vinícola
A entrada do belo restaurante À beira do lago, sofás para apreciar a vista Após o almoço, um passeio pela cidade de Sirmione
Jantar na Hostaria La Vecchia Fontanina
Um bom restaurante, com um atendimento prá lá de atencioso, mas com uma comida apenas regular, que incluía o já mal-afamado Risotto de Amarone, ou como queiram, Risotto de Arroz. No entanto, o prato principal, o Filetto di Manzo era espetacular, macio, suculento, bem temperado e foi disparado a melhor carne que comi na Itália.

Desta feita, não havia patrocinador para os vinhos e a escolha foi nossa e podemos compensar as várias refeições em branco e pedir dois belos amarones. E o destaque foi um Bertani Amarone della Valpolicella Classico 1999 em seu momento perfeito de evolução. Um vinhaço!
Entrada Risotto di Amarone Pasta con asparagi
Filetto di manzo Sobremesa
Franciacorta Ca' del Bosco Cuvée Prestige Bertani Amarone della Valpolicella 1999 Michele Castellani Cinque Stelle Amarone della Valpolicella 2005
Comentários
Sílvia e Sérgio Bocaletti
Enófilos
Rio de Janeiro
RJ
21/05/2011 Parabéns Oscar. Sua visão de detalhe e seu humor são nota 10.

Abraços.
Mário Miranda
Enófilo
Rio de Janeiro
RJ
21/05/2011 Ótimo trabalho do Oscar Daudt, com uma percepção fantástica dos detalhes enogastronômicos e dicas excelentes do Veneto para os enófilos e para todos aqueles que adoram não só viajar, mas curtir também a programação da viagem!
José Grimberg
Bergut
Rio de Janeiro
RJ
22/05/2011 Oscar, obrigado por bela reportagem. Mas você não sabe o "Espuma de Prata" que perdeu...
Antonio Landeira
Enófilo
Rio de Janeiro
RJ
22/05/2011 Parabéns por mais um excelente trabalho que mostrou a magnífica viagem que fizeram. Fiquei com água na boca!!!

Grande abraço
Antonio Carlos Alvarez Justi
Engenheiro mecânico
Rio de Janeiro
RJ
22/05/2011 Prezado Oscar,

Você conseguiu mostrar de uma forma muito agradável e leve uma maravilha de viagem com importantes degustações que o Grimberg nos proporcionou. Parabéns...
Eduardo Musa
Apreciador da vida
Rio de Janeiro
RJ
22/05/2011 Fantástico. Tanto a viagem como a maneira como você a descreveu e ilustrou.

Sou amigo de Justi, Mario, Boca, Marcio, Glauco e companhia. Me inclua na proxima!
Ana Maria Brandão Magalhães
Enófila
Rio de Janeiro
RJ
23/05/2011 Oscar,

Parabéns!!! Já lhe disse inúmeras vezes que suas reportagens são irretocáveis: concisas, bem escritas e, principalmente, com muito humor (às vezes, negro, quando coloca algo que uma enófila não disse e que você interpretou para fazer gozação).

Aproveito a oportunidade para parabenizar o Grimberg, mais uma vez, por esta viagem fantástica, bem planejada e com um grupo excelente. Gostei muito de conhecer os novos companheiros de viagens!!! Espero que estejamos juntos nas próximas...

Abs
Ana Maria Magalhães
Antonio Padua
Médico
Niterói
RJ
29/05/2011 Oscar.

Essas viagens, sem a sua presença, não seriam nem tão estufadas de humor nem tão bem documentadas pelos gargalhos. Parabéns pelo seu insubstituível trabalho!

Parabéns ao Grimberg que nos passa por osmose o seu grande prestígio no meio enofílico.

Parabéns ao grupo cuja integração foi fantástica.

Antonio e Janaina
Zizi Magalhães
Empresária
Rio de Janeiro
RJ
18/06/2011 Oscar querido, sobre a viagem: a cada narrativa, descrição e fotos, você se SUPERA! Tudo isso, sem contar com o seu "sempre" Bom Humor e a sua simpática e gostosa companhia! Meu querido, isso tudo e esse seu nato "Savoir Faire" não é para quem quer; é para quem pode!

Parabéns e obrigada por nos presentear com essa Maravilhosa lembrança!

Beijo muito carinhoso
Zizi
EnoEventos - Oscar Daudt - (21)9636-8643 - odaudt@enoeventos.com.br