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Mil anos de história
Minha primeira viagem a uma região vinícola internacional foi para a Toscana, em 2005. Naqueles tempos imemoriais, para mim existiam apenas 3 importadoras: a Mistral, a Expand e a Terroir. A última capotou, a segunda já não é mais o que era e a primeira segue firme e forte, tendo até dado cria. Dentre as três, o catálogo da Mistral era insuperável e praticamente organizei minhas visitas consultando as mágicas descrições das vinícolas que seus redatores criavam.

E uma das escolhas foi conhecer a Badia a Coltibuono, uma milenar abadia situada em Gaiole in Chianti, no coração do Chianti Classico (abaixo reproduzo algumas fotos que eu bati por lá). O majestoso prédio foi construído em 1051 pelos monges valombrosianos, pioneiros na introdução da uva Sangiovese - à época chamada Sangioveto - naquelas terras que seriam o berço do Chianti, a primeira região regulamentada do mundo. Segundo os italianos, é claro...

Com isso, foi uma alegria cheia de lembranças participar, no Salitre, de um almoço para a apresentação dos vinhos da Badia, comandado por sua proprietária e diretora, Emanuela Stucchi Prinetti. Em 1846, seu trisavô Guido Giuntini, um banqueiro florentino, comprou a Badia e desde então a família é responsável pelo histórico empreendimento. Sob o comando de Emanuela, a vinícola tomou a decisão de tornar seus 70 hectares de vinhedos em uma agricultura orgânica, com extremo respeito à histórica propriedade. Vou repetir: na minha opinião, esse é um caminho sem volta. Quem viver, verá!

Hoje em dia, a Badia deixou de ser a residência da família e está totalmente dedicada ao enoturismo, contando com pousada, restaurante e uma escola de gastronomia comandada pela mãe de Emanuela, Lorenza de Medici, consagrada autora de livros de culinária.

A elegância acima de tudo
A bem-falante produtora encantou os convidados com suas histórias e seus vinhos, que ela descreve como sendo uma busca constante pela elegância. Os vinhos são todos elaborados com as castas típicas da região, sem cair na tentação de utilizar as castas internacionais mais comerciais e preservando a tipicidade do Chianti. O resultado é encantador.

A linha apresentada começa com os Cancelli Coltibuono Rosso 2009 e Coltibuono RS 2007, vinhos acessíveis e gastronômicos, que Emanuela explicou serem elaborados com uvas compradas de produtores da região, para atender a enorme demanda que o mercado americano exige e que os limitados vinhedos da Badia não conseguiam dar conta.

Quando os vinhos derivam de uvas plantadas na propriedade, trazem estampado no rótulo Uve da Agricoltura Biologica, como são os casos do Badia a Coltibuono Chianti Classico 2008 e do Badia a Coltibuono Chianti Classico Riserva 2006. O primeiro, elaborado com Sangiovese e 10% de Canaiolo, passa 12 meses em carvalho francês e... austríaco. Curiosamente, identifiquei marcantes aromas de espermacete, coisa que a maioria dos presentes nem sabia do que se tratava e me olhava com ares de reprovação, mas que nada mais é do que os prosaicos pingos de uma vela. E eram aromas extremamente agradáveis, de infância, que acompanhavam um vinho de médio corpo e elegância, arrematado por uma deliciosa acidez.

Bem mais encorpado, o Riserva, 100% Sangiovese e 24 meses de repouso em carvalho francês e austríaco, apresentava aromas florais e de tabaco, com uma boca aveludada e condimentada, e mais uma vez com a característica acidez dos vinhos da Coltibuono.

Arrematando a minha refeição, o Sangioveto di Toscana 2004, 100% Sangiovese (ou Sangioveto, como o nome informa) é um vinho magistral! Classificado como IGT, é curioso saber que ele não pode se identificar como Chianti Classico unicamente por culpa do nome, visto que as regras da DO impedem que o nome da casta venha estampado no rótulo. Eu diria: "Que bobagem!" Com um nariz cheio de especiarias e muitas frutas e flores, tem uma boca macia e volumosa. Um espetáculo! Infelizmente, não é barato, como tudo aqui nos trópicos, e para ver como a gente sofre, a própria produtora não resistiu e afirmou, candidamente: "Estou chocada com os preços dos meus vinhos aqui no Brasil!"

Oscar Daudt
Os vinhos
Cancelli Coltibuono Rosso 2009
Denominação: IGT Toscana
Castas: 70% Sangiovese, 30% Syrah
Álcool: 12,5%
Preço: US$30,90
Coltibuono RS 2007
Denominação: Chianti Classico
Castas: 100% Sangiovese
Álcool: 13%
Preço: US$49,90
Badia a Coltibuono 2008
Denominação: Chianti Classico
Castas: 90% Sangiovese, 10% Canaiolo
Álcool: 14%
Preço: US$56,90
Badia a Coltibuono Riserva 2006
Denominação: Chianti Classico
Castas: 100% Sangiovese
Álcool: 14,5%
Preço: US$89,50
Sangioveto di Toscana 2004
Denominação: IGT Toscana
Castas: 100% Sangiovese
Álcool: 15%
Preço: US$124,50
Badia a Coltibuono Vin Santo 2004
Denominação: Vin Santo del Chianti Classico
Castas: 50% Trebbiano, 50% Malvasia
Álcool: 16,5%
Preço: US$99,25
Os participantes
Jornalista Bruno Agostini
Emanuela Stucchi Prinetti, da Badia a Coltibuono Homero Sodré, diretor da SBAV-Rio
Jornalista Danusia Barbara Reinaldo Paes Barreto, do Jornal do Brasil Paulo Nicolay
Ricardo Farias, presidente da ABS-Rio Célio Alzer e Yoná Adler Emanuela e Alexandre Lalas, do Wine Report
O serviço foi comandado pelo sommelier Rodrigo Moura A mesa do almoço
Enoturismo
(fotos de divulgação)
Minha visita à Badia em 2005
Comentários
Rodrigo Moura
Sommelier
Rio de Janeiro
RJ
28/07/2011 Bom dia Oscar,

Agradeço à Mistral por mais uma vez escolher o Salitre para apresentação de seus vinhos. Assim como a presença de todos os convidados que puderam apreciar os belíssimos exemplares da Badia a Coltibuono e também constatar nosso empenho cada vez maior, na criação e elaboração dos pratos.

Parabéns pela cobertura e até a próxima.
Milton de Araújo Sousa
Professor de hotelaria & Maitre Executivo
Atibaia
SP
28/07/2011 Como Sommelier e amante dos vinhos da Toscana, principalmente os Chiantis, adorei a reportagem, e sentir o aroma de espermacete numa seção de degustação é algo que nos faz lembrar os tempos dos mosteiros e igrejas, algo Fantástico.
Luciano Neto
Enólogo
Porto Alegre
RS
28/07/2011 Espermacete. Confesso que nunca tinha ouvido falar nisso, mas fui pesquisar no Oráculo (Google) e cheguei ao site do Wikipedia. Lá explica que o Espermacete, uma cera natural, extraída da Cachalote, tem, entre outras propriedades, a ausência de cheiros. Inclusive, diz que as Velas de espermacete são apreciadas exatamente por não exalarem odores nem fumo. Você poderia descrever melhor o aroma que percebeu no vinho?

Luciano, como você é gaúcho, fiquei surpreso de você não conhecer essa palavra. Era de uso corrente na minha infância, quando as constantes faltas de luz em Porto Alegre nos obrigavam a ter uma familiaridade com velas. Nós a usávamos para nos referir às gotas de cera que pingavam, muito embora o dicionário não registre esse significado. Mas, mesmo você sendo bem mais novo, imaginei que os gaúchos continuavam usando o termo.

Para tirar a teima, acendi uma vela agora e, na verdade, enquanto ela estava queimando, o aroma era bem sutil. Mas quando apaguei a chama, veio imediatamente, bastante pronunciado, aquele cheiro exato que eu sentia quando pequeno. Faça o teste, é a melhor maneira de você conhecer esse aroma, que eu nunca havia sentido em um vinho antes e que me veio à memória olfativa, rapidamente, quando degustei o Badia a Coltibuono Chianti Classico.


Oscar,

Na verdade, eu sou paulista de nascimento, mineiro de coração (fui criado em Minas, onde moram meus pais) e gaúcho por casamento e profissão. Minha esposa e filha são gaúchas e comecei a minha vida profissional por lá também. Mas agora estou em São Paulo.

Mas voltando ao assunto, o cheiro de vela que tenho lembrança é o cheiro de parafina. Não sei se as velas ordinárias de parafina têm o mesmo aroma das velas de espermacete, as de parafina tem um aroma leve quando são queimadas que aumenta logo depois que se apaga a chama. Mas em matéria de vocábulos, os gaúchos mantêm umas certas palavras que há muito não se ouve mais por outros rincões. Espermacete, em especial, não havia ainda ouvido, mas compreendo agora do que se trata o aroma em questão.

Pensei que quando falou de espermacete, se tratava de alguma vela especial, de aroma distinto do da vela ordinária de parafina. Mas pelo que entendi agora, trata-se de nome como se tratava a vela (mesmo a de parafina) em Porto Alegre, na sua infância.
José Paulo Schiffini
Enófilo da velha guarda
Rio de Janeiro
RJ
28/07/2011 O sangue de Júpiter. Uma uva Vitis Vinífera Etrusca, racemis pyramidalibus congestis, acinis rotundis, nigricantibus, vino purpúreo, generoso, austero, duraturo, Vulgo: Sangiovéto o Sanzoveto o San Ghioghéto , atualmente SanGiovese, é a uva que forma o fundo dos vinhos mais generosos da Toscana.

Atenção: não é a uva do Brunello, a Sangiovese Grosso... parente mais moderna dela... É uma uva toda Toscana, talvez a mais preciosa das uvas de toda Itália! Ela entra sozinha ou em corte nos principais vinhos da região de Chianti, de Pomino, de Carmignano, é muito apreciada na província de Pistóia e de Siena e se mistura com uvas menores de Lucca e de Pisa, etc... Todos os enólogos toscanos descrevem o Sangiovéto, mas não o descrevem da mesma maneira, e nem todos restringem o seu uso; mas apenas a Badia a Coltibuono elabora o melhor Chianti com esta uva e apostou em desenvolvê-la, quando a maioria há 30, 40 anos atrás foi atrás da onda dos super-toscanos, para competir com os franceses de Bordeaux...

La signora Stucchi Prinetti ou Emmanuela, pela simplicidade e pela intimidade com que conduziu a maravilhosa apresentação de seus vinhos e de seu resort, onde se pode aprender a verdadeira cozinha Toscana deu um show na sua passagem pelo Brasil, na apresentação para os profissionais, no Bar Stuzzi, uma gracinha na Dias Ferreira 48.

Gostei do Chianti Clássico (US$ 56,90), do Reserva (US$ 89,50) e claro do Vin Santo (US$ 99,25); são vinhos para comprar de caixa.

Também uma grande surpresa conhecer os proprietários (Valter Lopes Filho e Jarbas da Croce) do recém inaugurado Da Frentana Tratoria, no Condado da Barra, bem como rever o Maurício Szapiro, da Prima Bruscheteria, o Augusto Viera, do Málaga, que elabora um Labskaus famoso, o Pedro do Aprazível e as gentis Bianca e Denise do restaurante Afrânio em Araras.

Parabéns à Mistral por ajudar a desenvolver a culinária Italiana no Rio de Janeiro trazendo vinhos que podem harmonizar com esta cozinha como bem ensinado nos cursos da ABS-RJ utilizando o método do Pietro Mercadini.

Para não dizer que sou "chapa branca" tive oportunidade de comentar que o Chianti da Badia a Coltibuono, como dizia nossa amiga Juarezita é o melhor do mundo, melhor que o do Castelo di Ama e muito mais BB que os do Castello del Terríccio, mas não entendí até agora o porque, por exemplo, do preço do Vin Santo, que no catálogo da Mistral de 2008 custava apenas US$ 79,00... Um aumento de US$ 20,00 em US$ 79,00 ...

Com a palavra quem souber me explicar:
  • Será que o vinho subiu no produtor?
  • Será que os impostos de importação subiram?
  • Será que a Mistral aumentou a margem?

    Quem quiser arriscar pode me explicar... Oscar, obrigado pela oportunidade de complementar o que aconteceu fora da apresentação para os jornalistas.

    Schiffini, de bom humor com a Toscana, degustando suco de manga Palmer bem madura, bem gelada com alguns grãos de Pimenta da Jamaica, tudo batido no mixer, experimentem...
  • José Paulo Schiffini
    Enófilo da velha guarda
    Rio de Janeiro
    RJ
    22/08/2011 Eu voltei lá visitar o Jarbas no Da Frentana. O verdadeiro sabor caseiro italiano.

    Você já comeu o spaghetti alla chitarra abruzesse? Não deixe de ir jantar à luz de velas na Da Frentana Tratoria e experimentar. Av. Armando Lombardi 800 Loja 11. Barra da Tijuca tel: 32567124. Confesso que adorei a massa caseira do Jarbas... Cheguei a repetir o prato do espaghete verde com rúcula! Se desfaz na boca...

    Imbatível, e pouca gente conhece.
    Schiffini
    C. A. Badia
    Representante de vinhos
    Porto Alegre
    RS
    07/06/2012 Degustar os vinhos da BADIA foi a melhor coisa do mundo.
    EnoEventos - Oscar Daudt - (21)9636-8643 - odaudt@enoeventos.com.br