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França

O branco mais caro
Meu amigo Eugênio de Oliveira do blog Decantando a Vida é, assim como eu, um declarado apreciador de vinhos brancos. E quando fui a Nova Iorque, outubro último, para participar da Wine Experience, pedi a ele algumas dicas de vinhos para trazer na mala. Uma delas foi o exclusivíssimo Provignage 2008, 100% Romorantin, que eu poderia encontrar na Astor Wines.

E lá fui eu para a excepcional loja de Greenwich Village, considerada a maior da cidade, em busca do meu tesouro. Encontrei o vinho e o preço era de arrepiar: 99,90 dólares! Mas a recomendação era tão enfática que eu decidi me presentear e comprei aquele que foi o branco mais caro da minha vida. Eu até já bebi brancos mais custosos, mas patrocinado pelo meu rico dinheirinho, esse foi o recorde.


A casta Romorantin
A casta Romorantin foi trazida da Borgonha para o Loire, no século XV, pelo rei François I, e já foi uma das uvas mais plantadas da região. No entanto, com o tempo, essa variedade foi perdendo terreno para as mais populares Sauvignon Blanc e Chenin Blanc, e hoje está confinada à pequena denominação Cour-Cheverny, na qual reina absoluta como a única casta permitida. Seus vinhos são secos, com marcante acidez, intensos e minerais.

Portanto, o produtor Henri Marionnet, do Domaine de la Charmoise, quase caiu da espaldeira quando um viticultor lhe ofereceu um antigo vinhedo em que havia a minúscula parcela de 0,36 hectares plantados com essa rara casta. Conta Marionnet: "As vinhas foram analisadas e confirmou-se que datavam de 1850 e haviam escapado milagrosamente da filoxera. Acredito que eu possua, atualmente, o vinhedo mais velho da França."

Tive o prazer de conhecer Marionnet - que leva o cognome de Papa da Gamay - quando ele foi contratado pela Miolo para dar consultoria na elaboração do Miolo Gamay e esteve no Rio de Janeiro para o lançamento desse vinho no Museu de Arte Moderna (clique aqui para recordar).

Com esse histórico vinhedo localizado fora da denominação Cour-Cheverny, o produtor elabora um exclusivo e caro Vin de Pays du Loir et Cher, batizado de Provignage. Esse nome refere-se ao método de propagação das videiras, utilizado antes da filoxera, em que um galho da mesma era enterrado, enraizava e depois era separado da vinha-mãe, gerando uma nova planta independente. O nome não poderia ser mais adequado. Mas descombinando com tudo, o rótulo é tão amadorístico que mais parece ter sido elaborado com uma impressora jato-de-tinta, às pressas, pelo auxiliar administrativo da vinícola.

Vinho natalino
Um vinho assim tão especial precisava de uma ocasião também especial para ser apreciado, e nada melhor do que - segundo os maias - o último Natal de nossas vidas.

Não sei se vocês são assim, mas eu, diante de um vinho com um currículo tão importante - e com um preço tão salgado! - já gosto de antemão. Impossível degustá-lo sem uma reverência ritual, pensando que quando as vinhas foram plantandas, Baudelaire estava escrevendo As Flores do Mal e Napoleão III reinava sobre a França. Era muita história dentro de uma taça!

E o vinho correspondeu às altíssimas expectativas com que foi desarrolhado. Tinha um caráter único, mágico, diferenciado. Seus aromas remetiam a frutas brancas, flores da mesma cor, avelãs e intensa mineralidade. Com uma acidez elétrica, era seco, cristalino, possante, complexo e interminável. Um inesquecível presente que Papai Noel deixou para mim...

Oscar Daudt
Comentários
Eugênio Oliveira
Enófilo
Brasília
DF
26/12/2011 Grande Oscar,

Antes de tudo um Feliz Natal para você!

Ainda bem que o vinho correspondeu às expectativas, caso contrário eu estaria frito! Estive agora em novembro com o Adriano Miolo, aqui em Brasília, e sugeri a ele que a Miolo fizesse a importação desse vinho, já que eles têm uma parceria com o Marionnet. Ele disse que ia pensar.

De toda forma seu vinho natalino bateu de longe o meu, parabéns e fiquei com aquela inveja boa (ainda bem que você não postou fotos do vinho na taça), se é que isso existe.

Forte abraço
Guilherme Lopes Mair
www.umpaposobrevinhos.com.br
Brasília
DF
24/02/2012 Caro Oscar,

Também segui a dica do Eugênio e trouxe esse vinho de Paris (mas da safra 2007) em agosto de 2011. Provei no domingo: veja a matéria.

Um abraço,
EnoEventos - Oscar Daudt - (21)9636-8643 - odaudt@enoeventos.com.br