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Itália

Caminhos de mármore
Antes de visitar a Sicília, maio passado, tudo o que eu conhecia dos vinhos Marsala era apenas que serviam para, na cozinha, preparar um Escalopinho ao molho Marsala. Mal sabia eu o que estava perdendo. Lá aprendi muito sobre esses vinhos e, principalmente, comecei a apreciá-los.

Durante os dias que passei na cidade de Marsala, minha diversão predileta era sentar-me nos bares da Via Giuseppe Garibaldi e deixar a vida passar com uma taça de Vergine à mão. É um charme só, pois as calçadas e as ruas do centro histórico são pavimentadas com mármore branco, testemunho de um tempo de grande riqueza com seu comércio de vinhos. À medida em que o sol ia baixando, ao fim do dia, as pedras polidas refletiam uma luz mágica que inspirava a pedir mais uma dose. Belas lembranças...

Maus tratos
Os vinhos Marsala têm paternidade e data de nascimento conhecidas. O mais importante vinho fortificado da Itália é filho do inglês John Woodhouse, um comerciante de vinhos especializado em Porto, Madeira e Jerez, em 1773. E a história aconteceu por acaso.

John estava navegando em torno da Sicília quando uma tempestade o obrigou a buscar refúgio no porto de Marsala. Lá ele conheceu e se encantou com o vinho local, denominado Perpetuum, elaborado através de um sistema semelhante às "soleras" espanholas. Decidiu, então, levar uma pequena partida para a Inglaterra e solicitou que o vinho fosse fortificado para resistir à longa viagem. O sucesso nas ilhas britânicas foi tão grande e tão imediato que John decidiu se mudar para a Sicília e se tornar um produtor do vinho que viria a ser o Marsala.

Infelizmente, a Itália nos proporcionou mais um péssimo exemplo de oportunismo. Em função do sucesso comercial, a qualidade foi sendo abandonada ao longo dos anos. Quando a DOC foi criada, em 1969, a regulamentação foi bastante flexível e os produtores passaram a aumentar a produtividade dos vinhedos a níveis impensáveis. Muitos até abandonaram as tradicionais variedades Grillo e Inzolia em troca da mais produtiva Catarrato, uva de menor qualidade. E o descaso não parou por aí. A chaptalização tornou-se usual e alguns produtores utilizavam até mesmo aromatizantes artificiais (café e chocolate) para disfarçar a pobreza do vinho. Na prática, isso acabou com o prestígio do Marsala, que passou a ser muito mais utilizado nas panelas do que nas taças. O vinho não merecia isso...

Em 1984, a liberalidade com os rendimentos foi revisada, em uma tentativa de recuperar a antiga fama, mas depois que se mata um produto, é difícil e custoso ressuscitá-lo. Os resultados estão aparecendo muito lentamente, em função dos esforços de alguns produtores conscientes, e acho que só precisaremos esperar mais dois séculos para que o Marsala recupere seu antigo esplendor.

Uma classificação complicada
Como se não bastassem os maus tratos que o vinho sofreu, a classificação dos Marsala é uma enorme confusão, dificultando, e muito, a compreensão dos consumidores. Os estilos são divididos por cor (Oro, Ambar e Rubino), nível de açúcar (Secco, Semisecco e Dolce) e tempo de envelhecimento (Fine, Superiore, Superiore Riserva, Vergine e Vergine Riserva), formando inúmeras combinações enigmáticas.

Além de múltiplas classificações, os nomes empregados não são os mais adequados. O Fine, por exemplo, é o mais simples de todos; o Secco pode ser elaborado com até 40g/l de açúcar, o que já é muito doce; e os dois Vergine é que são realmente os vinhos secos. Bem, se você está perdido, não se preocupe: você não está sozinho.

Mas ainda há que se saber as castas autorizadas para o Marsala: para os vinhos brancos (Oro e Ambar) são autorizadas a Grillo, a Inzolia, a Catarratto e a desconhecida Damaschino; para o Rubino, são válidas as castas tintas Pignatello, Nero d'Avola e Nerello Mascalese (que podem ter a companhia de até 30% das castas brancas).

Magnífico
Mas um bom Marsala não tem nada a ver com esses problemas de super-produção ou com a incompreensível classificação. Ele é simplesmente um vinho suntuoso!

Eu trouxe da viagem uma garrafa do Pellegrino Marsala Vergine Riserva 1997, a mais alta categoria que há, e me arrependi de não ter trazido mais. Não lembro quanto paguei, mas o wine-searcher.com me informa que este vinho na Itália custa por volta de 19 euros. Muito embora os melhores produtores prefiram utilizar apenas a casta Grillo, a de maior qualidade, este que eu comprei é um corte dessa casta com a mal-afamada Catarratto. Mas isso em nada modificou o meu prazer.

O visual é essa cor âmbar, bonita, transparente que aparece na foto. No nariz, aromas de frutas secas, figo, iodo, condimentos, mel, com toques oxidados que em muito lembram um Jerez Oloroso. Na boca, deliciosa acidez, muito volume, cremosidade e uma longa persistência.

O vinho é um excelente aperitivo e para melhor harmonizá-lo eu recomendo fiambres, amêndoas e/ou um belo queijo de cabra. Com certeza, você estará com a vida ganha.

Onde encontrar
Com todos os problemas relatados, não é de se espantar que as opções em nosso mercado sejam bem limitadas. A importadora Prima Linea é quem traz os vinhos da Pellegrino, mas este rótulo específico, eu não consegui encontrar por lá.

A Decanter oferece dois exemplares doces: o Marco de Bartoli Marsala Superiore Riserva 10 Anni, de 500ml, por R$241,50, e o Marco de Bartoli Marsala Superiore Vintage 1986, também de 500ml, pela assustadora quantia de R$425,50. E a Franco-suissa tem um Florio Marsala Superiore Secco, por preço não divulgado.

Oscar Daudt
05/11/2012
Comentários
Rogerio Goulart
Empresário
Rio de Janeiro
RJ
06/11/2012 Aqui na MondoVino a gente tem um Lombardo Marsala Superiore Ambra Dolce, de 18% de teor alcoólico, que é trazido pela Casa Flora.
EnoEventos - Oscar Daudt - (21)9636-8643 - odaudt@enoeventos.com.br