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Brasil

O Velho Novo Mundo
Pelo menos na vinicultura, a Serra Gaúcha deveria ser classificada como Velho Mundo. Enquanto nossos pares novo-mundistas, em geral, apostam em vinhos alcoólicos, super-extraídos e marcadamente amadeirados, a bem cultivada herança italiana na principal região vinícola do Rio Grande do Sul faz com que nossos produtores busquem a elegância, a sutileza e a vocação gastronômica.

Desta vez, recebi como divulgação um magnífico exemplar desse estilo ítalo-brasileiro: o Dal Pizzol Quarenta Anos 2012, um vinho elaborado em comemoração ao quadragésimo aniversário da vinícola de Faria Lemos, comandada pelos irmãos Antônio e Rinaldo Dal Pizzol.

Quatro décadas, quatro castas... O enólogo Dirceu Scottá escolheu misturar quatro variedades para construir esse vinho tão especial: a maciez da Merlot (40%), a complexidade da Cabernet Sauvignon (30%), os taninos da Tannat (15%) e o poder majestoso da Nebbiolo (15%). E o resultado desse complicado corte é fantástico.

Conta-nos Dirceu: "Procurei traduzir quarenta anos de história, aprendizado e cultura de forma a obter um vinho longevo e destinado ao sucesso." E para obter essa máxima qualidade, a quantidade produzida foi muito pequena, com apenas 3.520 garrafas numeradas. A mim tocou a de número 96.

A elegância e o prazer
Visualmente, o vinho já cativa com sua embalagem discreta e formal. Distraidamente, lê-se no rótulo apenas Dal Pizzol, em preto, e Quarenta Anos, em dourado. Mas com um pouco mais de atenção, nota-se escritas em cinza clarinho sobre fundo branco, dezenas de palavras soltas que me parecem querer contar em substantivos a história da vinícola. E dá para cansar os olhos tentar ler criatividade, cortesia, vocação, afeição, alma e por aí afora...

A garrafa é imponente, pesada, daquelas de aumentar alguns décimos de grau no aquecimento global. Fazer o quê? É ecologicamente incorreta, mas qual consumidor respeita uma garrafa levezinha?

Na taça o vinho se revela em uma cor rubi bastante jovem, de média intensidade, mostrando que ainda é uma criança e que merece um pouco de paciência - que eu não tive - para degustá-lo em seu melhor momento.

Em sua elaboração, numa escolha estilística, apenas 15% do vinho estagia por 18 meses em carvalho francês, enquanto o restante aguarda pacientemente em tanques de inox. Tanto cuidado permite que o nariz se expanda em frutas maduras, com toques balsâmicos e uma discreta, bem discreta, baunilha.

Quem vê cara, não vê coração, e a cor não deixa antever a boca poderosa, complexa, com um frescor que assina sua vocação gastronômica, embalada por taninos maduros, textura aveludada e excelente permanência. Um GRANDE vinho que faz a gente ter cada vez mais orgulho de nossa produção.

E quanto custa?
Essa é sempre a parte mais delicada. Mas a resposta, desta feita, é simplesmente, não sei...

Entrei em contato com o representante da vinícola aqui no Rio de Janeiro e este me informou que, por ser um vinho de tiragem limitada, as vendas seriam realizadas somente pela página Internet da Dal Pizzol. E adiantou-me que os vinhos seriam vendidos, unicamente, em embalagem de 4 garrafas ao preço de R$360 (isto é, R$90 por garrafa).

Visitei a página da vinícola e não encontrei nenhum referência a essa venda. Até há um banner inicial que anuncia o novo vinho, mas que não leva a lugar nenhum. Portanto, não deve ser por lá...

Procurei, então, em algumas lojas gaúchas na Internet e pude encontrá-lo sendo vendido em 2 delas e, contrariando o anunciado, a venda é por unidade. Na Vinhos e Vinhos o Quarenta Anos é vendido por R$131,83 cada garrafa, enquanto que na Vinhos e Sabores o preço está mais em conta, custando R$113,00.

Eu sei que é caro, mas se você puder pagar essa quantia, eu vivamente recomendo. Você, com certeza, terá uma surpresa com a qualidade extraordinária desse vinho.

Oscar Daudt
23/06/2014

Comentários
Luiz Carlos Cattacini Gelli
Empresário
Rio de Janeiro
RJ
25/06/2014 Oscar, gostei de ler que os nossos vinhos, da Serra Gaúcha, deveriam ser classificados como Velho Mundo: também penso desta maneira!

E me preocupa, pois se ainda não damos o valor exato aos nossos produtos, os produtores podem querer copiar outros países do Novo Mundo, e acabar prejudicando a nossa vocação.

Aproveito para adicionar que além da característica que você apontou os vinhos desta procedência têm uma grande capacidade de envelhecimento. Já experimentei vinhos com 10, 15, 20 e até mais anos e são surpreendentes.

Tenho hábito de envelhecer alguns rótulos nacionais e nunca desapontaram meus convidados.
Rafael Mauaccad
(via Facebook)
São Paulo
SP
25/06/2014 Oscar, vinho com credencial, mas acima de R$ 100. Vai ficar na lista de espera de um bom momento, quem sabe ainda nesta Copa!!
Carlos Stoever
Advogado e enófilo
Porto Alegre
RS
06/07/2014 Grande matéria!

Concordo com as palavras do Luiz Carlos - vinhos da Serra devidamente guardados proporcionam grandes experiências!

Abraço!
EnoEventos - Oscar Daudt - (21)99636-8643 - odaudt@enoeventos.com.br