Matérias relacionadas
Restaurantes

A maturidade
Eu já havia estado algumas vezes no Oro e as minhas experiências por lá foram sempre muito positivas. Mas esta semana, a convite de Felipe Bronze, voltei à casa mais uma vez para conhecer o novo cardápio e fiquei absolutamente deslumbrado!

A assinatura do chefe continua a mesma: criatividade incontrolável, valorização dos ingredientes brasileiros, gastronomia lúdica, releitura de receitas tradicionais e o esmero de um artista na construção e na apresentação de cada prato. No entanto, acrescente-se agora uma pitada de maturidade que fez toda a diferença, com um resultado final que surpreende e deleita. Sem dúvidas o menu-degustação mais exuberante e delicioso da cidade.

Zona de conforto
Do cardápio anterior, não sobrou esfera sobre esfera e praticamente tudo era novidade.

Logo no primeiro prato, uma provocação: sorvete de ostras e algas encimado por uma... formiga! E não era daquelas formiguinhas pequenininhas, mas sim uma avantajada saúva amazônica que parecia ter sido criada a pão-de-ló. Nossa cultura ocidental não está acostumada com o consumo de insetos e minha rejeição foi imediata. A sommelière Cecília Aldaz, que gentilmente nos atendia, desequilibrada por sua barriga de 9 meses, contou que a intenção do chefe era tirar as pessoas de sua zona de conforto. No meu caso, o objetivo foi plenamente atingido, pois desconforto é uma palavra muito leve para descrever como eu me senti naquela situação. Dizem que essa formiga, inexplicavelmente, tem gosto de capim-limão. Eu, como convidado, não queria fazer feio, e decidi comê-la mesmo contra a minha vontade. Porém, se tem gosto de capim-limão ou não, não me perguntem, pois não tive coragem de mastigar e engoli feito pílula... Por sorte, o sorvete em si era uma delícia e lavou rapidamente a memória.

A partir daí, no entanto, não aconteceram mais choques culturais e, embora as inúmeras etapas representassem uma surpresa atrás da outra, eram sempre para o lado do bem. Lembro com carinho das lulas em pérolas sobre um tempura de ora-pro-nóbis - folha bastante utilizada na cozinha tradicional mineira - e maçã verde. Um espetáculo!

Uma demonstração cabal de técnica e criatividade foi o Bife à cavalo. Esqueça tudo o que você conhece sobre esse prato! Em operação cirúrgica, o chefe injeta em uma gema, com seringa de agulha fininha, um caldo de carne concentrado e - pronto! - aí está um dos mais gostosos momentos do jantar.

Ajo Blanco é uma sopa fria típica da Andaluzia, elaborada com alho e amêndoas. Pois Felipe decidiu dar um banho de brasilidade nesse prato e trocou as amêndoas pelas castanhas-do-pará, para acompanhar uma tenra vieira, que ainda tinha a seu lado um inesperado e absolutamente delicioso picles de maxixe. Quem poderia imaginar um uso tão nobre para um vegetal tão desvalorizado em nossa gastronomia?

Eis que surge um Ovo estrelado em nossos pratos, que com um olhar mais atencioso revela-se uma comida fingida. Tudo bem, o que parecia ser uma gema era uma gema mesmo, cozida pacientemente a 75ºC, mas o que deveria ser a clara era na verdade uma espuma de batata que escondia uma cama de couve delicadamente temperada com alho. Esse é prato mais emblemático do chefe e eu só fiquei pensando que poderia repetí-lo incontáveis vezes, ainda que o tenha classificado apenas como o segundo melhor do desfile.

O melhor de todos ainda estava por vir e materializou-se como o Porquinho com nhoque. Tenra como ela só, a carne tinha como molho uma redução do próprio porco com infusão de tomilho e vinha acompanhada de inexplicáveis e sedutores nhoques de canjica. Canjica??? Confesso que a vontade que dava era de colocar uma camisa amarela e sair gritando: Brasil-il-il!.

A sobremesa - que os leitores sabem que eu não como - foi um verdadeiro gran finale. Chamada de Brasilidades, era na verdade um conjunto de 8 mini-sobremesas típicas brasileiras apresentadas em um prato com formato de coroa. Belas e tentadoras e eu não resisti - por pura gula - a comer um brigadeiro que ficava piscando para mim.

Conforme a fome
Quem se der ao trabalho de contar as fotos abaixo verá que este jantar foi uma verdadeira esbórnia: 15 etapas salgadas e 12 sobremesas. E mais, harmonizadas com 8 vinhos e uma cerveja ainda sem rótulo, todos eles selecionados pela invejável sensibilidade da sommelière Cecília. Foi uma aventura apenas para os fortes!

Mas para quem quiser conhecer o novo cardápio, há diversas fórmulas que se adaptam à fome de cada um. Vejam só:

  • Oro 5: 4 cursos e sobremesa - R$180 (harmonização: R$105)
  • Oro 7: 6 cursos e sobremesa - R$230 (harmonização: R$155)
  • Oro 9: 8 cursos e sobremesa - R$295 (harmonização: R$195)
  • Oro Vegetal: 7 cursos e sobremesa - R$275 (harmonização: R$185)
  • Experiência Oro: 21 cursos (apenas sob reserva) - R$395 (harmonização: R$295)

    Oscar Daudt
    27/04/2014


    Serviço:
    Oro Restaurante
    Rua Frei Leandro, 20
    Jardim Botânico
    Fone: (21)7864-9622
  • O espetacular jantar
    (fotos de Lilian Seldin)
    Ostra, alga e... uma saúva de verdade! Lula, tempura de ora-pro-nóbis e maçã verde
    Milharal Profiteroles de queijo de Marajó e licuri Alho e cebola, "a combinação preferida dos brasileiros"
    Bife à cavalo Porquinho à pururuca Açaí e fígado de beijupirá
    Vieira, espuma de castanha e picles de maxixe
    Barriga de pirarucu, mocotó e carne seca Ovo estrelado, gema 75ºC, espuma de batata e couve
    Black cod, missô, rapadura com caldo tostado de galinha e pupunha fermentada Porquinho e nhoque de canjica Rabada com creme de milho
    Capa de filé, espuma de tutano e batata doce Sorvete de batata baroa e baunilha Pão de queijo com doce de leite
    Sobremesas: Brasilidades Pipoca com cumaru Pudim de leite
    Brigadeiro Cocada Churros com flor de sal
    Twix com caramelo Romeu e Julieta Torta de limão
    Sorvete com nitrogênio Brigadeiro de milho
    Os vinhos harmonizados
    Espumante Campolargo Bical, Arinto e Cerceal
    Bairrada
    Niepoort Redoma Branco 2010
    Douro
    Tikal Alma Negra V Blend
    Mendoza
    Selbach-Oster Riesling Trocken 2010
    Mosel
    Viña Gravonia 2003
    Rioja
    Montes Cherub Rosé of Syrah 2011
    Valle de Colchagua
    Sileni Pinot Noir 2011
    Hawke's Bay
    Allende 2006
    Rioja
    Os personagens
    Chef Felipe Bronze Sommelière Cecília Aldaz

    Comentários
    André Luiz de Oliveira
    Provador de café
    Itaperuna
    RJ
    27/04/2014 Fantástico... um verdadeiro labirinto enogastronômico... A formiga para sair da zona de conforto é realmente um complicador, mas surpreendente, pois acho que comeria, já que comi lagarta do coco no Equador. Que gosto tem? De manjar branco!

    Parabéns pela matéria super interessante! Abraços
    Aline Gomes
    Documennta Comunicação
    Rio de Janeiro
    RJ
    28/04/2014 Adorei, Oscar! Vontade de largar o computador e sair correndo para o Oro.

    Beijos
    EnoEventos - Oscar Daudt - (21)99636-8643 - odaudt@enoeventos.com.br