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Itália

Garimpando no Friuli
No final de 2012, viajei ao Friuli para conhecer os vinhos da região, considerados pelos próprios italianos como os melhores brancos daquele país. À época, embora conhecesse muito pouco sobre os vinhos laranjas, devido à sua virtual inexistência em nosso mercado naquele momento, já era um fanático por esse tipo de vinho e aproveitei para trazer muitas garrafas na mala.

Provando, paulatinamente, cada um dos rótulos, a paixão foi aumentando. Nada mais natural, portanto, que agora que estou importando vinhos, tenha escolhido trazer vinhos laranjas, não apenas para o meu consumo, mas para oferecer aos leitores do EnoEventos.

No Friuli, tenho uma grande amiga - a carioca Ada Regina Freire - que gentilmente se dispôs a escolher a melhor opção. Como Ada é sommelière e trabalha no Conselho Regulador, havia participado de uma degustação às cegas de vinhos laranjas e me contou que os vinhos a Azienda Agricola Skerk haviam se destacado frente aos demais. Como eu já conhecia e admirava um desses rótulos, juntou a fome com a vontade de comer e não foi difícil decidir importá-los.

O engenheiro que virou laranja
Sandi Skerk (foto ao lado) é um ex-futuro-engenheiro, que deixou os estudos para se dedicar, de corpo e alma, ao cultivo da vinha e à produção de vinhos, juntamente com seu pai Boris. Os 7 hectares de vinhedos são bastante áridos e pedregosos, o que costura o diferencial de seus vinhos. As videiras são tratadas com carinho, com métodos exclusivamente naturais, o que lhe valeu, em 2011, o prêmio de Viticultura Sustentável, escolhido pelo prestigiado guia Gambero Rosso.

A produção anual da vinícola é de apenas 20.000 garrafas, investindo nas variedades autóctones, como a tinta Terrano e as brancas Malvasia Istriana e Vitovska. Os métodos naturais continuam na adega, onde todos os seus vinhos são fermentados com as cascas e nenhum deles passa por filtragem.

Escolhi para essa primeira importação trazer dois rótulos: um varietal e um corte.

Skerk Vitovska
O vinho varietal é o Skerk Vitovska 2011. Para quem não sabe, a Vitovska é uma variedade branca originária do Carso - uma região binacional, dividida desde o final da Segunda Guerra pela fronteira da Itália com a Eslovênia - e é praticamente restrita a ela, com raríssimas experiências em outros países. Tendo sido quase extinta no início do século XX, a partir de 1980 a variedade foi sendo recuperada por dedicados produtores e hoje em dia é a segunda casta branca mais plantada na região.

Este é um típico vinho laranja, permanecendo em maceração com as cascas durante 30 dias. Após a fermentação, repousa em contato com as borras por 12 meses, em grandes toneis de 2.000 litros e ainda descansa mais 6 meses depois de engarrafado.

O que resulta desse processo cuidadoso é um vinho espetacular! Sua cor nem é tão alaranjada assim, e pode ser melhor definida como um ouro velho com bordas alaranjadas. Mas é muito bonito! O nariz exibe deliciosas notas de tangerina, flores brancas, louro, caramelo, envoltas em uma mineralidade típica do solo calcário do Carso.

Na boca, que é a melhor parte, o ataque é vigoroso, com viva acidez, uma textura cremosa, com ligeiras notas salgadas, taninos discretos e uma permanência que dura até o dia seguinte. Em suma, um vinhaço!

Skerk Ograde
Contrastando com o vinho anterior, o Skerk Ograde 2011 é um corte tipicamente friulano, reunindo em partes iguais a Vitovska, a Sauvignon Blanc, a Malvasia Istriana e a Pinot Grigio. Essa reunião de variedades, maceradas com as cascas durante 15 dias, resulta em uma cor espetacular: seus tons acobreados, lembrando casca de cebola, mais parecem de um rosé do que de um branco. Apesar de não filtrado, o vinho é límpido e luminoso. Difícil encontrar uma cor mais sedutora para um vinho!

No nariz, a festa continua, com incontáveis aromas que vão se apresentando pouco a pouco, onde se pode encontrar o grapefruit, o damasco, a flor de cravo, o melão cantaloupe, o mel e o chá. Se você tiver paciência, vai encontrar muitos mais...

Na boca, é um vinho suculento, com especial frescor, muuuuuita permanência, taninos educados, com muita complexidade e profundidade. Tem longa vida pela frente, durante a qual a evolução só vai lhe fazer muito bem.

Na harmonização, os vinhos laranjas são como um coringa. Por apresentar a acidez dos brancos e os taninos dos tintos, é um vinho que vai bem com uma gama grande de pratos, podendo mesmo acompanhar uma refeição do início ao fim.

São vinhos fora da curva, distantes da zona de conforto de grande parte dos enófilos. O estilo é inesperado, mas o prazer que eles conferem provocam uma experiência transcendental. Não deixe de conhecê-los.

Oscar Daudt
26/04/2015
Os vinhos




Skerk Vitovska 2011
R$139
Skerk Ograde 2011
R$159
A irresistível cor do Skerk Ograde
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