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Portugal revela aos poucos seus tesouros vitivinícolas. Depois da avalanche alentejana, dos novos durienses, das surpresas bairradianas e do despertar do Dão, eis que as emergentes regiões da Estremadura e do Ribatejo mostram suas novas armas. Até aqui mais conhecidas pelos seus vinhos regionais (teoricamente de qualidade inferior aos DO e DOC), as terras vitícolas ao norte de Lisboa, às margens do rio Tejo, decretaram sua maioridade em 2009, com o lançamento da DO Lisboa (Estremadura) e DO Tejo (Ribatejo).

Tivemos a honra de participar do primeiro grupo de especialistas brasileiros chamados para um giro em terras ribatejanas, ciceroneados pela novíssima CVR Tejo (Comissão Vitivinícola Regional do Tejo), na pessoa do consultor Eric Ariault e da Coordenadora de Promoção e Marketing Edna Barbosa. Como único representante da imprensa enogastronômica carioca, e na companhia dos especialistas paulistanos Carlos e Lena Cabral, Manuel Luz e José Luiz Pagliari, circulamos durante quatro dias pelas vinhas ribatejanas, conhecendo suas peculiaridades, provando ótimos vinhos e partilhando o entusiasmo e espírito empreendedor dos produtores locais. Estiveram conosco também Sergio, Adriano e Paulo, da importadora Grenache e Rute Araújo, de SP, especialista em turismo equestre.

Ficamos sediados na histórica cidade de Santarém - capital cultural da região, às margens da auto-estrada A1, cerca de 80 km ao norte de Lisboa. Fundada no séc. VIII AC, lá repousam os restos mortais de nosso descobridor, Pedro Álvares Cabral. Nos tempos modernos, é lembrada por ter sido o quartel-general da Revolução dos Cravos, de onde partiram as tropas para depor o governo salazarista. A região é conhecida também pela popularidade das touradas e pela tradição de esportes equestres entre seus habitantes. De fato, em boa parte das vinícolas visitadas, a estrutura turística incluía centros hípicos de adestramento e competição. A este propósito, nosso grupo teve a oportunidade de visitar a Feira Nacional do Cavalo, principal evento equestre de Portugal, realizado em um singelo lugarejo (a vila de Golegã), que, nos dias da festa, se transforma em uma grande quermesse, com pedestres e cavaleiros se misturando pelas ruas, entre barracas que vendem de tudo, desde borregos assados na hora, até vestimentas de fina moda.

Bem, mas vamos aos vinhos. Enófilos atentos devem garimpar rótulos de regiões produtoras pouco conhecidas, onde muitas vezes se encontram vinhos de notável custo-benefício e não se paga o valor agregado da fama do produto. Sempre incluímos os vinhos ribatejanos nesta categoria, e agora confirmamos esta característica in loco, nas nove propriedades visitadas no Ribatejo.

NA PORTA DA TEIRA E A ROSA AZUL
A primeira delas foi a Sociedade Agrícola João Teodósio Barbosa, em Alto da Serra, onde fomos recebidos pelo próprio João Barbosa. A adega Porta da Teira tem cheirinho de nova e é uma das três adegas da empresa, que também produz vinhos no Alentejo e em Setúbal. As vinhas foram plantadas em 2000 e a casa produz os vinhos Ninfa, que ainda não chegaram ao mercado brasileiro. O novo vinhedo Pinot Noir é exclusivo para a novidade da casa, o espumante Ninfa Bruto 2007, elaborado pelo método clássico, com aromas florais e bom paladar. O estruturado monovarietal Syrah 2006, passa seis meses em carvalho francês e americano e dez meses em garrafa; o Ninfa Aragonês/Touriga Nacional é pura fruta, sem passagem na madeira; o Touriga Nacional/Syrah 2006 tem estágio em barricas usadas, por sete meses e o Touriga/Aragonês/Syrah 2006 é o vinho de maior elegância e personalidade.

O nome Ninfa é uma homenagem a um dos tesouros arqueológicos do local, uma escultura de ninfa, supostamente pertencente a uma Villa Romana ali sediada no séc. III DC. Outra curiosidade é o símbolo da companhia, uma rosa azul(!), representando a busca da perfeição inatingível. Aliás, os Teodósio Barbosa usam um singular código de cores para identificar as varietais predominantes nas garrafas: Syrah - azul; Aragonês - amarelo; Touriga Nacional - vermelho; Pinot Noir - bordeaux. Os vinhos se revelaram deliciosamente gastronômicos, quando combinados com os talhos de carne bovina (especialidade local) do restaurante Recantão, em Rio Maior.

Como o turismo tem que estar sempre presente nos roteiros enogastronômicos, nossa próxima parada foi nas Salinas do Rio Maior, uma extensa mina de sal-gema nos arredores da cidade. Consta que desde 1177 se extrai sal desta mina, que fica a 30 km do mar. A produção atual é de 1,5 mil toneladas de sal ao ano, produzidos em oito tanques, num total de 15 mil m².

A CASA DA ALCÁÇOVA
Quem pretende se hospedar em grande estilo na cidade de Santarém, não hesite em procurar a Casa da Alcaçova, uma mansão do séc XVII, construída sobre as ruínas de antiga fortaleza medieval, situada no alto de uma colina, junto aos Jardins da Porta do Sol, de onde se tem estupenda vista do rio Tejo e suas cercanias, com a Ponte D. Luis, para Almeirim, em primeiro plano. Os jardins internos se estendem do edifício até o muro da antiga fortaleza e ao novo pavilhão de quartos, fronteiros à moderna piscina.

Na residência, que já teve hóspedes como Bocage e diversos nobres e fidalgos lusos, se respira história e tradição. Os aposentos são identificados por nomes ilustres como o poeta Guilherme de Azevedo, nascido em Santarém; Alexandre Herculano, que morou na cidade; Almeida Garret e Bocage. Rico mobiliário de época e relíquias cuidadosamente dispostas, compõem o clima de imponência e sobriedade da residência.

Para chegar ao lugar, vindo do centro da cidade, percorre-se os principais pontos turísticos, em agradável passeio a pé, pelas ruelas do centro histórico, com destaque para a Igreja de N.S.da Graça (com a tumba de Cabral), a Casa do Brasil, construída no séc. XVIII sobre as estruturas da casa da família de Cabral, a Torre das Cabaças (torre-relógio do séc. XV) e a Igreja de N.S. da Marvila, toda revestida internamente de azulejos seiscentistas. Há muitos outros pontos dignos de visita e vale ressaltar que Santarém é considerada a capital do estilo gótico em Portugal, como bem expressam seus monumentos. No jantar do primeiro dia, na própria Casa, saboreamos um belo prato de Bacalhau à Alcáçova, precedido de uma sopa de migas, em companhia dos simpáticos anfitriões Sérgio e Cláudia, proprietários da Casa.

O CASAL DA COELHEIRA E A ENCOSTA DO SOBRAL
No segundo dia, subimos ao norte, beirando o Tejo até a pequena vila de Tramagal, para visitar a Quinta do Casal da Coelheira, que leva este nome devido à profusão dos ditos roedores existentes no local, ao lado de perdizes, patos bravos e javalis! Fomos recebidos pelos enólogos Nuno Falcão e Duarte Lopes que nos mostraram a adega, construída no início do séc. XX, em uma propriedade originalmente destinada à produção agrícola. Do total de 250 ha, atualmente 64 ha são ocupados por vinhas novas e antigas (até 35 anos) de castas portuguesas e francesas.

No interior da antiga construção, encontramos uma vinícola moderna, com cubas largas e equipadas com pisadores mecânicos, que evitam as remontagens à bomba. Um sofisticado sistema de controle de processos garante a qualidade do produto final. Os vinhos estão em duas gamas, os Terraços do Tejo 2008 branco (100% Fernão Pires) e 2007 tinto (Aragonês, Syrah e Castelão) são vinhos fáceis de degustar e bons para o dia-a-dia. A gama superior, Casal da Coalheira, é mais ampla, com um branco DOC (Fernão Pires com Chardonnay), um monovarietal Chardonnay, um rosado (Syrah e Touriga Nacional), tinto DOC (Touriga Nacional e Alicante Bouschet) e o Reserva 2007 DOC (Alicante Bouschet, Aragonês e Cabernet Sauvignon). São vinhos de maior complexidade, com os tintos estagiando alguns meses em carvalho, o que lhes dá riqueza e finesse sensorial. O ícone da casa chama-se Mythos (Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional) 2005, produzido apenas em anos excepcionais e com doze meses de amadurecimento em carvalho novo francês. É um vinho intenso e encorpado, com estrutura tânica e acidez capazes de garantir cinco a dez anos de guarda. Os aromas de frutas e especiarias garantem ótimo resultado na boca e no nariz, com final longo e saboroso.

Parte dos vinhos foram degustados em harmonia com pratos regionais no restaurante local A Lúria. Vejam algumas especialidades da casa: Mexilhoada de feijão, Cifercas com ovos, Petinga no forno, Magusto de carnes e ... muito mais.

Dali, seguimos para o norte e chegamos a adega Encostas do Sobral, em Tomar, limite do Ribatejo, já na altura de Fátima e Leiria. A cidade de Tomar abriga um legado histórico de várias épocas e culturas, tendo sido a sede da famosa Ordem dos Templários e, posteriormente, da Ordem de Cristo, das quais conserva diversas relíquias.

A vinícola, de administração familiar há algumas gerações, foi recentemente modernizada, com plantação de novas vinhas (70 ha) e construção de uma nova adega. Diversas castas brancas e tintas, portuguesas e francesas, possibilitam um portfólio de sete vinhos, mostrados pelo enólogo Pedro Sereno: os brancos são o Encosta do Sobral 2008 (Fernão Pires, Arinto e Malvasia), fresco e persistente, com leve passagem em carvalho e o Different White 2007, elaborado com uvas de vinhas velhas (60 anos), seis meses em barricas novas de carvalho francês, que alia o frescor das castas brancas portuguesas a uma complexa paleta aromática de frutas, com muito equilíbrio no paladar. Entre os tintos, há o Cabeço de Pedra, um entry level, feito com Castelão e Aragonês. A linha de tintos Encosta do Sobral tem três versões: o robusto colheita, com Castelão, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon; o persistente Reserva (14 meses em carvalho e 10 em garrafa), com Trincadeira, Touriga Nacional e Touriga Franca e o encorpado monovarietal Cabernet Sauvignon. O Different Red 2006 completa a série, com suas uvas de vinhas velhas, que lhe dão elegância e distinção.

A noite foi dos cavalos, ali pertinho, em Golegã, como já comentamos. O jantar, lá mesmo, foi no restaurante O Barrigas, de boa comida e nome pitoresco, como é comum na terrinha. A propósito, não pudemos deixar de fotografar a placa que indica outro restaurante da cidade, de nome bem contundente, demonstrando a verve e o bom humor do povo português.

A FIUZA & BRIGHT, A QUINTA DA ALORNA E O CASAL BRANCO
A freguesia de Almeirim, na margem direita do Tejo e à pequena distância de Santarém, concentra boa parte das adegas produtoras de vinho do Ribatejo. A nossa primeira prova neste terceiro dia foi na moderna Fiuza & Bright, fundada em 1985, numa associação da família portuguesa Mascarenhas Fiuza, de tradição secular na viticultura portuguesa com o enólogo australiano Peter Bright. Pioneira no uso de castas "cachorras" (estrangeiras), produz vinhos com uvas de vinhedos próprios, distribuídos pela Quinta da Granja,em Romeira; Quinta Nova da Azambuja, em Azambuja; Campo dos Frades, em Alcanhões e a Quinta da Requeixada, em Almeirim, num total de 120 ha. Em duas delas cultiva-se também o milho, o tomate e a beterraba.

Nossos anfitriões Rita Martins e Giovanni Nigra comentaram sobre as castas cultivadas e vale ressaltar a presença, entre outras, das brancas Tália, Trincadeira das Pratas, Vital, Pintado dos Pardais e Rabo de Ovelha, mostrando a riqueza ampelográfica da península ibérica. Há sete gamas de vinhos, desenvolvidos para atender ao mercado mundial (exportam para dezessete países), numa produção de um milhão de garrafas/ano. Oceanus, Campo dos Frades, Native, Três Castas, Monocastas, Premium e Ikon. Provamos três brancos e três tintos das gamas altas: o branco Três Castas 2009 (Vital, Chardonnay e Arinto) leve e refrescante; o monocasta branco Sauvignon 2009, de estilo europeu, com aromas vegetais, notas minerais e frutos brancos; o top branco Ikon 2008 (Chardonnay e Trincadeira das Pratas) complexo e com notas de tostado, boa acidez e persistência; o tinto Três Castas 2008 (Syrah, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon) declaradamente passado em chips de carvalho; um Merlot 2008 bem frutado e com toques de baunilha e café e o top tinto Ikon DOC 2007, 100% Touriga Nacional, mais um bom e equilibrado vinho desta casta que lidera o Portugal moderno.

O almoço prometia, pois iríamos provar a famosa "sopa de pedra" e isto aconteceu no restaurante O Forno, ao lado da monumental Praça de Touros de Almeirim. Nada mais é do que uma sopa de legumes, onde para preservar a lenda já conhecida de todos, supostamente se colocou e retirou uma pedra. Preferimos as morcelas, o bacalhau grelhado e o porco preto assado, neste típico recanto da cozinha portuguesa.

À tarde, fomos conhecer a imponente Quinta da Alorna, representada no Brasil pela Adega Alentejana. O nome Alorna vem de 1723, quando a propriedade foi adquirida por D. Pedro de Almeida, 1º Marquês de Alorna. São 2,8 mil ha às margens do Tejo, dos quais 220 ha destinados à viticultura, 1,9 ha de florestas (sobreiros, pinheiros e eucaliptos) e 500 ha para agricultura (milho, fava, beterraba, ervilha e batata). Desde 2001 até 2010, os investimentos são de € 5,2 milhões, para atingir uma capacidade de produção de 3 milhões de litros. O faturamento (em vinhos) no ano de 2008 foi de € 3,6 milhões, com 57% da produção exportada para dezoito países.

Além das cifras graúdas, impressiona o majestoso Solar da Alorna, com seus salões ajulejados, capela e picadeiro, muito bem conservados pela família Lopo de Carvalho, proprietária da Quinta, já em sua 5ª geração. O curioso é que a fachada principal está de costas para a estrada, voltada para o rio, principal via de transporte de outrora. Aqui se cultivam as castas usuais da região, portuguesas e francesas e há duas gamas de vinhos, os Cardal, mais simples e os Quinta da Alorna, dos quais, orientados pelo enólogo Nuno Cancela de Abreu, provamos o Quinta da Alorna 2008 branco (Arinto e Fernão Pires), bem fresco e agradável; o tinto QA Touriga Nacional 2008, equilibrado e de boa maciez; o QA tinto 2008 (Tinta Roriz, Syrah, Castelão e Alicante Bouschet) se mostrou encorpado, com taninos domados e muito gastronômico; o mais premiado vinho da casa é o Reserva Touriga Nacional/Cabernet Sauvignon 2007 que passou um ano em carvalho francês e ganhou complexidade, aromas intensos de frutas vermelhas e notas florais de violeta. Pede a companhia de um prato de caça.

Encerrando o passeio do dia pela Rota de Vinhos do Ribatejo, chegamos à Quinta do Casal Branco, mais uma propriedade do séc. XVIII. A família Cruz Sobral mantém, desde 1775, a área de 660 ha, onde a primeira adega (a vapor!!) foi implantada em 1817. São 140 ha de vinhas variadas, com idade média de 30 anos. A coudelaria, com criação e adestramento de cavalos puro sangue lusitanos, é uma das principais atividades do local, ao lado do enoturismo e da produção de vinhos e azeites. Os vinhos, distribuídos no Brasil pela D'Olivino, estão em várias gamas, desde os básicos Capoeira e Terra de Lobos, até os Quinta do Casal Branco, Falcoaria e Capucho.

A enóloga Dina Luís nos apresentou o interessante espumante Monge Bruto, elaborado, vejam só, com a tinta Castelão! Provamos ainda o Terra de Lobos 2008 branco (Fernão Pires e Sauvignon Blanc), fragrante, com toques florais e frutados; o monovarietal Quinta do Casal Branco 2008, de Fernão Pires, bem fresco e perfumado; o Falcoaria DOC branco 2007, parte fermentado em barricas de carvalho e com estágio "sur lie" o que lhe deu aromas de especiarias, florais e frutados, com boa acidez, elegância e persistência. Fomos aos tintos, iniciando pelo Terra de Lobos 2006 (Castelão e Cabernet Sauvignon), pura fruta, sem madeira; Quinta do Casal Branco DOC 2007 (Cabernet Sauvignon, Castelão, Touriga Nacional, Merlot e Alicante Bouschet) o qual, com este corte de cinco uvas, a fermentação em lagar com pisa humana e a passagem pelo carvalho francês, apresentou-se complexo e rico, com notas de frutas maduras, chocolate e confiture. O Quinta do Casal Branco Touriga Nacional 2007 também vem dos lagares e expressa muito bem a tipicidade desta grande uva. Um vinho de final aveludado e longo. Chegamos ao Falcoaria Doc 2006, um vinho de cinco uvas (Castelão, Trincadeira, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional e Alicante Bouschet) provenientes de vinhas velhas (80 anos), fermentado em lagar e nove meses de carvalho. Predominam os frutos vermelhos e especiarias, num conjunto equilibrado e potente. Para encerrar, o Falcoaria Reserva DOC 2007, cujo corte recebe também a Petit Verdot e passa um ano em carvalho, configurando um vinho de notas marcantes de frutas bem maduras e secas, taninos domados e paladar elegante.

Abrilhantando o jantar desta noite, nossa última em Santarém, tivemos o prazer de ouvir a jovem fadista Teresa Azóia, que impressionou pela personalidade, bela voz e repertório esmerado. Foi no restaurante Portas do Sol, de boa cozinha portuguesa e ao lado da Casa de Alcáçova.

A QUINTA DA RIBEIRINHA, O VALE D'ALGARES E O VALE FORNOS
Neste último dia de Ribatejo, ficamos do lado esquerdo do rio e fomos descendo ao sul, de volta a Lisboa, em visita a três notáveis empreendimentos. A Quinta da Ribeirinha, distribuída no Brasil pela Global Wine, fica em Póvoa de Santarém, com seus 95 ha, dos quais 40 ha estão dedicados às vinhas. O clima mediterrâneo, o solo argilo-calcáreo e a exposição sul garantem excelentes frutos, o que se reflete na qualidade dos vinhos, expressa em inúmeras premiações em contendas nacionais e internacionais. A Quinta produz também um azeite de alta qualidade, com a variedade (de oliva) Galega e outros produtos como compotas, chutneys e queijos. A sede da adega está instalada em um antigo (década de 30) Lagar de Azeite, onde se preservam maquinários e utensílios da época. O enólogo Rui Cândido nos apresentou quatro vinhos, o espumante Vale de Lobos Bruto 2005, 100% Fernão Pires, método tradicional, de bom equilíbrio maciez/acidez e perlage fino; o tinto Rota de Cabral 2008, homenagem ao nosso descobridor, tem corte de Castelão, Aragonês e Trincadeira, tem ligeira passagem em carvalho, revelando-se frutado e estruturado, bom para a gastronomia de pratos condimentados; o Vale de Lobos DOC 2007 (Castelão, Trincadeira e Aragonês), cinco meses em carvalho, impressiona pela ótima relação preço-qualidade e tem aromas de frutas vermelhas bem combinados com a baunilha e especiarias, com boca firme e encorpada; o Vale de Lobos Grande Escolha DOC 2005 (Trincadeira e Alicante Bouschet) não vai à madeira e já apresenta notas aromáticas etéreas, com toques animais e de vegetais como musgo e trufas.

Seguimos para a Vila Chã de Ourique, mimoso povoado de interior, com seu mercadinho de agricultura e lojinhas de família. O emprendimento Vale d'Algares, propriedade da poderosa empresa imobiliária Quatro Âncoras, foi iniciado com a recuperação de uma secular adega local, e só não destoa totalmente da singela vila, porque foi preservada a fachada original. Por dentro, o edifício é um luxo total, com tudo de bom e moderno que se possa imaginar. O projeto inclui ainda hotel de charme, restaurante gourmet, Spa, centro de eventos e centro equestre. Circulamos em microônibus por toda a magnífica estância, conduzidos pelo nosso velho amigo João Vilar (ex-Esporão), Diretor Comercial da adega. Os vinhedos, com 31 ha, são cultivados com as cepas de uso da região, com algumas novidades, como a Alvarinho, a Viognier e a Syrah. O rendimento de 1,2 kg por planta indica a intenção de produzir vinhos de alta qualidade, conforme demonstrado nas taças. Há apenas uma linha de vinhos, o Guarda Rios, em três versões, e um Vale d'Algares Premium branco 2006, 100% Viognier, que preserva a untuosidade típica desta casta, com equilíbrio e caráter. O Guarda Rios branco 2006 (Chardonnay, Sauvignon Blanc, Fernão Pires e Alvarinho) tem notas vegetais, cítricas, de frutas tropicais e maduras, expressando bem as tipicidades do corte. O Guarda Rios rosado 2006 (Aragonês, Syrah, Touriga Nacional) tem jovialidade e frescor adequados com acidez e estrutura que lhe garantem a versatilidade à mesa. O Guarda Rios tinto 2006 (Syrah, Touriga Nacional, Aragonês e Merlot) evidencia notas de chocolate, café e fruta madura, decorrentes do corte e da passagem em carvalho novo por nove meses, na boca é carnudo e longo. O almoço, no pequenino restaurante Pão e Vinho, em Vale de Santarém, trouxe-nos uns cabritos e leitões ao forno, marcando indelevelmente a passagem pelo local.

Nosso próximo compromisso revelava uma agradável surpresa para Carlos Cabral, grande especialista em assuntos do Douro e do Vinho do Porto. A Quinta Vale de Fornos, em Azambuja, uma propriedade vitivinicola e equestre, é recheada de passagens históricas. Por aqui teria passado Cristóvão Colombo, para comunicar ao rei suas descobertas e, mais tarde, teria se alojado Napoleão e suas tropas invasoras. O que impressionou ao amigo Cabral foi saber que a casa senhorial foi mandada construir por D. Antonia Ferreira (a Ferreirinha - insigne figura histórica do Douro) no séc. XVIII, para compor o dote de sua filha, que desposou o Conde de Azambuja. A Quinta tem 200 ha, sendo 70 ha para vinhas. Dona Graciete Monteiro, proprietária e Diretora Geral, é grande amiga do Brasil e lembra de seus vinhos no Rio de Janeiro, na antiga loja Taste Me, do Design Center Barra. A linha de produtos inclui um corte (Cabernet Sauvignon e Castelão), quatro varietais (Fernão Pires, Castelão, Castelão DOC e Syrah) e um Grande Escolha Cabernet Sauvignon. Todos vinhos bons para o dia-a-dia, com destaque para o Grande Escolha, de maior potencial e distinção.

Com este belo apanhado do novo Ribatejo, agora simplesmente DO Tejo, reafirmamos nossa crença nessa região fecunda e pouco conhecida entre nós. Decerto, o presente e o futuro revelam-se promissores para os vinhos ribatejanos. Colocando um pouco de molho político no programa, em nosso jantar de despedida, no Solar dos Presuntos (cuja especialidade são frutos do mar!!) em Lisboa, tivemos a companhia de José Pinto Gaspar, conceituado executivo do setor de bebidas, atualmente, Presidente da CVR Tejo e vitivinicultor na Quinta da Barreira, da Estremadura. Falou-nos sobre os desafios e projetos do novo Tejo e da certeza de que o Brasil, como um dos principais mercados de vinhos portugueses, terá papel importante na consolidação dos vinhos ribatejanos no cenário mundial.

Decerto ainda ouviremos falar muito do Tejo e seus vinhos, os quais esperamos estejam cada vez mais presentes em nossas taças e adegas!
 
Comentários
Liandro Silva
Gourmet
Niterói
RJ
07/01/2010 Querido amigo Homero Sodré,

Que bom saber que esse canal tão bem sucedido de informações enogastronômicas conta agora com mais uma estrela na sua constelação tão brilhante e formosa, proporcionando para nós momentos de satisfação em poder nos deliciar com leituras tão agradavéis e culturais como essa que você assim também proporcionou.

Um abraço.
Reinaldo Paes Barreto
Enófilo
Rio de Janeiro
RJ
07/01/2010 Prezado Homero,

Estamos todos de parabéns! Você por se juntar a nós, nós (colaboradores) por tê-lo na "corporation" e o portal EnoEventos pelo alistamento desse conscencioso e competente eno-trotter-repórter que é você.

Aliás, que fôlego! O texto está ótimo, mas se todos os outros forem dessa extensão, você vai ter que começar a escrever hoje à noite o do próximo mês!!!

Abraços e sucesso!
Reinaldo
Valdiney Ferreira
L'Orangerie
Rio de Janeiro
RJ
07/01/2010 Caro Homero,

Muito bacana sua reportagem sobre esta tentativa de renascimento do Ribatejo e da Estremadura. Vem se somar a outras mostradas recentemente pelo EnoEventos da nossa amada "terrinha". Em março tem o grande evento do Douro e certamente teremos grandes novidades. O Oscar estará atento e vai informar seus leitores.

Estou cá a torcer que esta duas novas DOs da Estremadura e do Ribatejo venham efetivamente somar no esforço que Portugal precisa fazer para recuperar sua posição no mercado internacional do vinho. Com seu mercado interno evidenciando um leve mas contínuo decréscimo de consumo (mais de 4% entre 2007 e 2008) e com uma queda mais sensível nas exportações (quase 15% entre 2007 e 2008) era de se esperar uma reação mais agressiva dos produtores. E aí estão várias evidências mostradas por você, Copello, Lalas e outros importantes formadores de opinião.

O mercado de vinhos do Brasil, como outros setores da economia, está sendo visto como possuidor de grandes oportunidades a serem exploradas. Com o tamanho de nossa economia, parece piada o consumo de 36 milhões de litros frente aos 450 milhões litros de Portugal ou o bilhão de litros da Argentina. Que Portugal se faça presente em nossas adegas de forma tão marcante como já o fazem Argentina e Chile.
Fátima Carvalho
Vendas - Barrinhas
Rio de Janeiro
RJ
07/01/2010 Olá!

Homero, gostaria de lhe parabenizar por mais este trabalho. Juntos vocês formam uma equipe do barulho. Imaginem só o que nos promete em 2010...

O EnoEventos a cada dia nos surpreende com estes presentes. Há pouco foi a vez do Copello, a coluna da Lu, com o Lalas etc...

Parabéns a todos e um Ótimo 2010.
Fátima Carvalho
Alexandre Henriques
Chef/Restauranter
Niterói
RJ
07/01/2010 Amigo Sodré
Adorei saber que você é da família do EnoEventos. Gostei muito da matéria.

No ano passado, viajei 10 dias fantásticos com o Sodré e um grupo de pessoas apaixonadas por vinhos e gastronomia para França, em Reims e Borgonha (Romanée-Conti). Homero é um cara sensacional e simples e muito atencioso com todas as pessoas da viajam.

Abraço amigo e parabéns!
José Paulo Schiffini
Enófilo da velha guarda
Rio de Janeiro
RJ
07/01/2010 Caro Homero,

Agora o EnoEventos cresceu! Sim, porque não existe no mundo do vinho profissional que tenha sido responsável por mais eventos que você.

Parabéns
Schiffini
Fernando Sequeira de Matos
Enófilo
Mealhada
Beira
Portugal
08/01/2010 Caro Homero

Gostei do seu artigo. A nova região demarcada de Lisboa sempre produziu bons vinhos, mas o estigma dos vinhos de quantidade produzidos para abastecimentos das tropas portuguesas durante a guerra colonial ainda se mantem. Bombarral, Cartaxo, Torres, Bucelas, Óbidos são exemplos da mudança de estilo na produção de bons vinhos.

Espero que os seus artigos futuros mostrem os pequenos produtores com bons vinhos desta região e não só as grandes casas que normalmente só produzem para carteiras abastadas.

É bom que o EnoEventos continue a crescer em quantidade e qualidade e se torne como a turma dos loucos corinthianos.

Vim para o Brasil para passar um mês no Rio Grande do Sul e já tenho dois a beber bons vinhos do Brasil.

Saudações enófilas
Fernando
Humberto Heidrich
Importador e sommelier internacional
Canela
RS
08/01/2010 Hola caro Homero,

É muito bom ler e ouvir coisas que falem do Ribatejo, para mim uma das regiões mais proeminentes de Portugal. Fazemos parte desta história, estamos trazendo ao Brasil alguns dos melhores vinhos desta região, da Herdade de Cadouços, uma empresa jovem mas já com vinhos entre os quatro melhores de Portugal, o Memoriun Natur, e eleita entre as seis melhores cantinas do Mundo em Bio-dinãmica, fazendo vinhos realmente maravilhosos, em modo Bio-eco cert. Uma lastima que não soubemos antes desta excursão ao Tejo, pois poderiamos ter agendado visita e degustação de toda linha .

Bueno, mas temos todos por aqui.

Parabéns e fraterno abraço,
Humberto Heidrich
Sommelier e juiz internacional de vinhos
Importadora La Charbonnade
Canela -RS
Reginaldo Schiavini
Designer
Bento Gonçalves
RS
09/01/2010 De fato, Homero, estive baseado no Cartaxo e fui ciceroneado pelo José Arruda a AMPV e são bastante pujantes e promissores os vinhos do Ribatejo, tendo inclusive forte divulgação e marketing e, é claro, boa qualidade e ótima relação custo benefício.

Abraço e parabéns.
Reginaldo
Homero Sodré
Enófilo
Rio de Janeiro
RJ
12/01/2010 Agradeço aos amigos Liandro, Reinaldo, Valdiney, Fátima, Alexandre, Schiffini, Fernando, Humberto e Reginaldo, pelos elogios e paciência em ler este extenso relato.

Sou grande admirador do trabalho do Oscar Daudt e, agora, orgulhoso de integrar seu quadro de colunistas. Estarei por aqui a cada quinzena, relatando minhas experiências pelas adegas do mundo.

Um grande abraço a todos!
Edna Narbosa
CVR Tejo
Portugal
15/01/2010 Caro Homero,

Muitos parabéns pela excelente reportagem da sua visita à nova Região Vitivinícola do Tejo. Adorei le-la, foi como se a estivesse a vivê-la de novo. É sempre bom relembrar boas experiências e sem dúvida que receber o vosso grupo foi das melhores experiências profissionais que já tive. Espero que ela também possa contribuir para um maior conhecimento da Região Tejo (ex-Ribatejo) e dos seus excelentes vinhos.

Só para esclarecer, Lisboa (ex-Estremadura) é um pouco mais ao lado!

Espero revê-lo em breve!

Bjs
Edna
Rita Martins
FIUZA & BRIGHT
Almeirim
Portugal
17/01/2010 Estimado Homero,

Muito obrigada pela sua visita e pelo seu profissionalismo! Espero que os seus leitores descubram o novo TEJO, O NOVO MUNDO DENTRO DO VELHO MUNDO! ;-)

Espero reencontrá-lo proximamente para provarmos as novidades da FIUZA & BRIGHT, seja no RJ ou em Portugal!

Até breve e um abraço,
Rita
Roberto di Tullio
Porto Leblon Vinhos
Rio de Janeiro
RJ
17/01/2010 Caro Homero,

Parabéns pelo texto. O EnoEventos ficou mais "encorpado" com a sua presença.

Você sabia que os vinhos da Quinta do Casal da Coelheira são importados pela Mercovino que é representada no Rio pela Porto Leblon?

Abraços e sucesso!
Roberto di Tullio
Nuno Falcao Rodrigues
Quinta do Casal da Coelheira
Tramagal
Portugal
22/01/2010 Prezado Amigo Homero

Gostaria de agradecer o seu esforço e disponibilidade para nos visitar. Foi muito agradável poder mostrar as nossas novidades e trocar algumas opiniões com tão grandes especialistas.

Espero que o Tejo possa continuar a contar consigo para a divulgação do que por aqui vamos fazendo. Conto poder encontrá-lo em breve, quem sabe, no Brasil em mais um "tour" de degustações da Mercovino.

Um forte abraço
Nuno
EnoEventos - Oscar Daudt - (21)9636-8643 - odaudt@enoeventos.com.br