Matérias relacionadas
Capítulo I: Nasce o mito
Capítulo II: A expansão
Capítulo III: O apogeu
Capítulo IV: A liderança

A derrocada final de um império
Não deveria ter passado despercebida pela Companhia a aquisição de imóveis industriais pela sua parceira, a Martini & Rossi, na cidade de Garibaldi, no ano de 1973. Nesses imóveis foram montadas as linhas de produção de espumantes, para cuja operação foi trazido o enólogo argentino Adolfo Lona, em 1973, assim como para controlar a linha Château Duvalier!

Não percebeu a administração da Companhia a saída do grande líder cooperativista Lotti, da Cooperativa Vinícola Garibaldi (1974), que comprou o imóvel industrial da Carraro & Brosina (1975) e acabou vendendo-o para a Martini & Rossi (1976), que iniciou reformas e ampliações.

A antiga posição confortável da Companhia de liderança direta nos vinhos de mesa com seu rótulo Castelo, liderança indireta nos vinhos finos com o rótulo da Martini & Rossi, de carga das linhas de produção com o Château Duvalier, a partir de 1979, desapareceu. A Companhia havia colocado todas as suas cartas em um acordo verbal, dele tirando a maior parte da sua carga de linhas de produção.

Neste ano, a Martini & Rossi rompeu o acordo verbal com a Companhia Vinícola Rio-Grandense e passou a produzir seus próprios vinhos finos, não só açambarcando marcas e seus nichos de mercado, como também se tornando um concorrente com enormes vantagens competitivas. O rótulo Château Duvalier assumiu a liderança nacional do segmento. Isso, efetivamente, marcou o início da retração da Companhia no mercado brasileiro.

Para esboçar reação, a Companhia se viu sem marcas comercialmente visíveis e sem estrutura de comercialização. Para quantificar, em 1979, a Companhia tinha produzido 17.706.596 litros de vinho, ocupando o terceiro lugar, abaixo apenas da Dreher com 30.256.044 e da Cooperativa Vinícola Aurora, com 19.583.538 litros. A Salton produziu 3.419.650 litros. Como escoar sua grande produção de vinhos?

Mesmo sem condições efetivas de atuar no mercado, a estrutura remanescente ainda se mostrava muito maior do que as necessidades, especialmente para a venda de volumes bem menores, portanto, entravam em cena graves problemas financeiros.

A histórica e muito conhecida marca Granja União, sofreu com esta paralisia empresarial, perdendo visibilidade comercial diante dos novos rótulos afrancesados e apoiados em campanhas modernas de Marketing.

Nas décadas de 1940 e 1950, a Companhia havia desfrutado uma forte posição de cerca de 33% da produção gaúcha, e com o impacto do rompimento do acordo em 1979 e dificuldades inerentes, vivenciou a imediata queda livre desta participação para um patamar em torno de 6% e, em 1986, restringiu-se a um percentual médio de mercado variando próximo de 3%!

Ao invés de aproveitarem os ativos e promoverem uma revisão total das operações, decidiram pelo mais fácil, buscando novas oportunidades de negócios fora do ramo, como o segmento imobiliário, sacrificando por retalhamento o grande patrimônio vitivinícola da Granja União, que foi loteada parcialmente e, assim, alcançada pelo perímetro urbano de Flores da Cunha.

Luta inglória
Rompia o ano de 1990, anunciando a chegada da década decisiva para o vinho no Brasil e as antigas vinícolas tiveram que ir se adaptando ao novo perfil da qualidade, as novas adegas se multiplicavam, a inflação brasileira corroía os esforços e os planos econômicos sucessivos deixavam os empresários à deriva, sem referências fixas. Todos tiveram que lutar e a Companhia Vinícola Riograndense bem que o fez.

Na década de 1980, a Companhia redirecionou seus esforços para as linhas de vinhos finos, Granja União e Quinta do Monte, somando novos rótulos que visavam a revitalização do nome no mercado. A decisão não atingiu os objetivos, devido ao desequilíbrio entre a pesada estrutura administrativa/comercial e os baixos volumes de vendas.

Continuando, em 1990, fechou as instalações do Nordeste, em Recife e Salvador, esta em parte porque ainda permaneceu em operação uma unidade de vinho licoroso.

Com as crescentes dificuldades econômicas, a Companhia deu início à gradual redução das estruturas e redução dos custos operacionais, visando uma última arremetida no mercado. Em meados da década de 1990, o derradeiro projeto de recuperação envolveu agregar valor aos produtos, mudando embalagens, desenho de rótulos e lançando nova linha de vinho suave Granja União.

Em 1995, aconteceu a decisão mais forte, pela qual se fecharam as filiais de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Rio Grande, cujas praças ficaram a cargo de representantes de vendas. A Unidade de Bento Gonçalves sofreu adaptações e recebeu ampliações, enquanto que as instalações de Caxias do Sul passaram por redução. A matriz, que sempre se localizou em Porto Alegre, foi sendo deslocada para Bento Gonçalves. No bojo deste plano radical estava previsto um volume de vendas que geraria um valor de receitas suficiente para bancar a operação e garantir a lucratividade pela redução de custos.

Em 1996, avaliando os gargalos que vinham prejudicando o deslanchar do plano, chegaram à linha de engarrafamento, que estava desatualizada. A Companhia tratou de buscar a solução através da compra deste serviço de terceiros, como a Forestier, que apresentava ociosidade em Garibaldi. Em 1997, uma rigorosa auditoria resultou em relatório detalhado do desempenho e dos resultados do plano que, infelizmente, revelou um prejuízo considerável e traduziu a não operosidade de todas as providências tomadas.

E, por fim, o sangue
Por outro lado, a unidade de Capão Bonito, interior de São Paulo, que vinificava vinhos de mesa e os vendia para engarrafadores da capital paulista, estava requerendo reforma dos vinhedos e atualização das instalações. Parte de suas terras já estava sendo usada para plantio de cereais, o que ajudava na manutenção de sua operação. Contra a execução destas necessidades pesavam a situação crítica da Empresa e a constatação de que sua produção mais concorria do que contribuia com a Companhia.

O Conselho de Administração avaliou o conteúdo do relatório e, após muitas discussões, concluiu que a Empresa havia atingido o ponto mais crítico da sua inviabilidade e que a melhor decisão seria encerrar as atividades relacionadas ao vinho, assim, preservando o patrimônio imobiliário dos acionistas.

Neste mesmo ano de 1997, começou o desmonte da Companhia Vinícola Riograndense, com o encerramento da pessoa jurídica e a venda da sua razão social, assim como, a venda de marcas de sua propriedade, como os rótulos Granja União comprados pela Vinícola Cordelier. Todo seu acervo imobiliário, equipamentos e estoques passaram para uma nova firma dos acionistas, a Companhia Castelo, que passou a administrar todo este patrimônio e tratar de vendas ocasionais de suas partes.

Em 1998 foi vendida a unidade de Capão Bonito, cujos novos proprietários arrendaram para a Vinhos de São Roque.

Nesta década ainda veio a ocorrer uma grande tragédia, quando os então proprietários da Companhia - o casal Carlos Correa de Oliveira e Nilza Pinto de Oliveira - foram degolados pelo próprio filho Carlos Alberto, na fatídica noite de 10 de outubro de 1994. Com isso, nada mais restou do fausto, da grandeza e da opulência da pioneira Sociedade Vinícola Rio Grandense!

Sérgio Inglez de Souza é editor do blog Todovinho, ex-presidente da SBAV, escritor e um dos especialistas em vinhos mais respeitados do Brasil
11/06/2013
Comentários
Osvaldir Castro
Professor universitário e enófilo
São José do Rio Preto
SP
21/06/2013 Parabéns Sérgio. A sua matéria é um registro histórico dos mais importantes, considerando-se o papel que a Companhia Vinícola Riograndense teve na evolução do vinho nacional.

Não é novidade. Como sempre, em seus textos, você demonstra o quanto conhece e o quanto defende nossa vitivinicultura. Valeu!
Altanir Jaime Gava
Eng Agrônomo e Enófilo
Niterói
RJ
07/08/2013 Sérgio,

Parabéns pela bela narrativa da CVR, parte da história do vinho nacional. Eu a conhecí bem em meados de 1970 quando, junto com o Eng. Agr. Callegari, tivemos a oportunidade de desenvolver o suco concentrado de uva para uso em bebidas, logo após a promulgação da Lei dos Sucos em 1973/1974.

É uma pena ver o que aconteceu com a CVR mas, a terra gira e as empresas precisam saber enfrentar os novos tempos.
Jaime Brugi Lini
Contador
São Paulo
SP
25/11/2013 Que pena o acontecido. Será que a atual vinícola produz o Vinho Chateau Duvalier? Ou onde posso encontrar?

Grato

Jaime, não tenho certeza, mas acredito que esse vinho não seja mais produzido. Abraços, Oscar
Jorge Besckow
Representante comercial
Porto Alegre
RS
26/08/2014 Lástima seu maior patrimônio, a marca Granja União, o primeiro variietal Brasileiro, se tornar um vinho comum nas mãos de Vinícolas. Saudades de um ótimo Malvasia, Riesling ou Cabernet da saudosa Vinícola Rio-Grandense.

Abraço.
EnoEventos - Oscar Daudt - (21)9636-8643 - odaudt@enoeventos.com.br