Na Expovinis de 2008, em uma palestra, conheci Horácio Fuentes, jovem enólogo da Viña Ventisquero. Gostei muito de sua coragem, diante de mais de 40 pessoas com suas papilas ávidas para encontrar o trinômio acidez, álcool e taninos, em equilíbrio, é claro.

E aquele rapaz nos apresentou, entre outros vinhos, o Pangea 100% Shiraz. A aceitação foi tanta que ao final, não me contive, pedi a palavra e dei meus parabéns por seu dinamismo e pelo entusiasmo em fazer parte da equipe que produziu o vinho. Naquele momento o jovem enólogo foi ovacionado.

Pensei: "ele não vai aguentar". Mas mesmo mostrando muita emoção, saiu-se muito bem.

Este ano, quando o encontrei no stand da Importadora Cantu, a recepção foi calorosa. Fui convidado para o lançamento de outro vinho premium, projeto do qual Horácio também participou. Claro que aceitei prontamente, e na hora marcada, ás 17:00 hrs do dia seguinte, lá estava eu.

Não me decepcionei. O vinho de nome Herú, elaborado com 100% de Pinot Noir, realmente apresentava todas as características de um vinho de superior qualidade.

Horácio já viajou por aproximadamente 20 países, inclusive do leste europeu, em sua busca por aperfeiçoamento. Estagiou como trainee na Kendall-Jackson na Califórnia, Estados Unidos. Trabalhou também, dessa vez como enólogo, nas vinícolas Errazuriz e Caliterra em projetos de vinhos tops.

Vamos à entrevista!

Saludos,
Carlos Teles
Carlos Teles Horácio Fuentes
Como se faz um vinho Premium? Para mim 90% do trabalho para se fazer um vinho Premium é realizado no vinhedo, buscando a máxima expressão frutal, concentração e equilíbrio entre açúcar e acidez. Para tanto, realiza-se práticas de cultivo que ajudam a encontrar as características buscadas através das podas, para que não se colha mais de 5.000kg/ha, controle de luminosidade, irrigação específica, etc... Nesse contexto, o momento exato da colheita tem papel fundamental.

Os 10% restantes se deve ao esmero do enólogo nas macerações a frio antes da fermentação alcoólica e a maceração pós-fermentativa antes de o vinho ser colocado nas barricas onde passa muitos meses repousando. Por último, nossos vinhos Premium não são filtrados, já que são decantados naturalmente. Finalmente ficam um ano na garrafa antes de ir para o mercado.
Qual é sua formação? Sou engenheiro agrônomo, formado há cinco anos no Chile. Logo após minha formatura especializei-me em enologia na California-USA. Para mim, a melhor especialização é o trabalho no campo, onde a persistência e a perseverança levam um enólogo a se superar a cada momento e consequentemente à realização profissional.
Qual o fato que você julga ter influenciado bastante em sua carreira? Quando em 2007, fui admitido como membro da Asociación Nacional de Ingenieros Agronomos, Enologos de Chile, entidade reconhecida e respeitada internacionalmente.
Como e quando chegou à Ventisquero? Em 2007, o Sr. Felipe Tosso, enólogo chefe da vinícola, que já conhecia meu trabalho, convidou-me para fazer parte de sua equipe. Não pensei duas vezes.
Qual é a uva da sua preferência? As uvas são como filhos, não têm diferença porque são diferentes.
Qual é a sua especialidade? Trabalho na elaboração de vinhos Premium, daí a empresa ter me destacado para o lançamento do Pangea na Expovinis de 2008 e do Herú em 2009.
Você tem algum projeto que gostaria de desenvolver? Sim, penso em atestar a expressão de terroirs em áreas mais ao sul, junto ao Oceano Pacífico, onde as temperaturas são baixas e a maturação da fruta se torna mais complicada, requerendo do enólogo uma habilidade bem maior para extrair o que há de melhor de cada casta.

Existem sempre novos desafios para potencializar a qualidade. Projetos novos, como plantar vinhedos em lugares jamais pensados, estão sempre mexendo com minha imaginação.
O que você acha sobre a chaptalização? É uma pratica enológica que não se realiza em meu país devido ao bom clima que temos. O Brix (teor de açúcar esperado) ideal é facilmente alcançado, sem problemas. O método de chaptalização, desenvolvido pelo francês Chaptal, consiste na adição de açúcar ao mosto para elevar o teor alcoólico. Utiliza-se esse procedimento em zonas frias onde as uvas não chegam ao amadurecimento completo, por falta de calor, o que dificulta a formação de glicose.
A prática de utilização de chips de madeira já está sendo utilizada no velho e novo mundo. Você é contra essa prática ou acha que deve haver uma flexibilidade na elaboração de vinhos mais baratos? Creio que devem existir normas sobre esse tema em cada vinícola. Cada um sabe a qualidade que irá entregar ao consumidor final.
Nós, consumidores, estamos lucrando muito com a disputa entre o Chile e a Argentina pela primazia de mercado. O que você pensa sobre essa disputa? Vejo essa disputa de maneira bem positiva. Vejo um caminho que integra culturas. O vinho é paixão, um apredizado constante. Pessoalmente, sou amante do Tango e do Malbec argentinos. Me agrada muito o enfoque Premium que os argentinos estão dando ao negócio.

O Chile, por outro lado, tem outras características a destacar. No final, o grande beneficiado é o consumidor, sem dúvida.
Na França a vitivinicultura é muito regulamentada. O setor empresarial é vigiado de perto pelos órgãos governamentais. Qual a situação no Chile? O governo do Chile, através da SAG (Serviço Agricola Y Granadero), regulamenta toda cadeia produtiva. Seria algo parecido com a Embrapa no Brasil, com mais poderes, talvez.
Você conhece a vitivinicultura do Brasil? Sempre fui apaixonado pelo mundo do vinho e um profissional aberto a novos terroirs, o que induz a atualizar-me bastante. Tento estar sempre a par dos acontecimentos. Para mim, o Brasil está desenvolvendo um trabalho muito interessante, principalmente no Vale dos Vinhedos, onde tive a oportunidade de degustar excelentes espumantes e bons Chardonnay.
De acordo com suas visitas pelo sul do Brasil, quais castas você acredita mais apropriadas para o desenvolvimento de um vinho com características próprias, com identidade? Entre as castas brancas, sem dúvida a Chardonnay mostrou-se muito bem adaptada. Todavia não posso deixar de mencionar a Viognier e a Pinot Grigio.

Entre as tintas, a Merlot se destaca.
Comentários
José Paulo Schiffini
Enófilo da velha guarda
Rio de Janeiro
RJ
05/06/2009 Bela entrevista Carlos.

Parabéns à Cantu, pela sua linha de produtos.

Schiffini
Mauro Cesar Festa
Enólogo
Rio de Janeiro
RJ
05/06/2009 Carlos, entrevista impecável.

Temos que valorizar os novos talentos no MUNDO DO VINHO.

Parabéns..
Sérgio Murillo
Representante comercial
Rio de Janeiro
RJ
05/06/2009 Bela entrevista, de grande teor didático.

Parabéns.
Anamir Alcantara
Engenheira
Rio de Janeiro
RJ
07/06/2009 Excelente Carlos. Simples, objetivo e claro. Temos vários jovens enólogos produzindo surpresas muito agradáveis. O Horácio Fuentes é um deles.

Parabéns à Ventisquero.
Magdalena
Enófila
Santiago
Chile
11/06/2009 Excelente entrevista! Um jovem enologo com grande experiência e pasion em frente a um grande entrevistador....

Felicito a Horacio Fuentes por seu trabalho e amor pelas coisas que faz..
Cristiane Miranda
Pesquisadora da Fiocruz
Rio de Janeiro
RJ
01/07/2009 Carlos,

Parabéns pela ótima entrevista.

Cristiane Miranda
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